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TIME OUT CHICAGO: RESENHA DE COMEDOWN MACHINE

A resenha mais concisa sobre Comedown Machine foi publicada dia 12 de março pela Time Out Chicago. É um faixa-a-faixa, e vocês podem ler a nossa tradução logo a seguir:

The Strokes – Comedown Machine | Resenha faixa a faixa

por Brent DiCrescenzo

“They found our city under the water / Had to get our hands on something new”  (“Eles encontraram nossa cidade debaixo d’água / Tivemos que colocar nossas mãos em algo novo”)
– Primeira linha de Comedown Machine

The Strokes estão condenados se o fizerem, e condenados se não o fizerem.

Ater-se ao roteiro de Is This It, é isso. Se repetem suas glórias passadas, críticos vão dizer que não estão evoluindo; se evoluem, críticos vão destruí-los por não repetirem os altos de seu disco de estreia. Este é o caso recorrente de bandas cujos discos de estreia dão luz ao fusível de um movimento inteiro. Como portadores da tocha, eles progridem e alienam discípulos. Mas se eles teimosamente se desconectam desse mesmo som, especialmente depois de passada uma década, eles estão condenados a cair do penhasco de irrelevância na medida em que seu som inevitavelmente perde o gosto. Apenas quase todos os caras com uma guitarra (bem, todos os caras com uma guitarra na Inglaterra) tentaram imitar o som dos Strokes. Portanto, os Strokes o abandonaram.

No entanto, os Strokes cobriram suas apostas ao promover seu quinto álbum, Comedown Machine, oferecendo um pouco do velho e do novo. Primeiro, houve “One Way Trigger”, um estranho número propulsor que corria como nervosismo provocado por cafeína com Julian Casablancas cantando em um falsete muito bagunçado por cima de um ousado riff de teclado. O primeiro single oficial, “All the Time”, trovejou em uma garagem cara com instrumentação de rock padrão e aprumo de tamanhos de arenas. No papel, “Trigger” foi a nova direção excêntrica, enquanto “Time” satisfez os puristas. Mas, francamente, o primeiro foi mais verdadeiro ao espírito original do grupo de hiper-composições velozes e emotivas com misturas não convencionais. “All the Time” poderia se passar por Pearl Jam. Nenhuma é um indicativo de como o resto do álbum soa. Absolutamente.

De certo modo, The Strokes emulam um Blur inverso. Dalmon Albarn e Graham Coxon enjoaram do arco brilhante do Britpop e abraçaram diferentes estilos americanos de rock underground no LP homônimo de 1997. The Strokes liberam seus “novaiorquismos” para uma manhosa aproximação continental. Se há qualquer traço da Big Apple, é a grande sombra do Blondie, que fez truques similares mais tarde em sua carreira. O pessoal da festa diz que o quinteto mergulhou fundo nos anos 80. Eu acho que um ponto de referência melhor é a virada do milênio em Paris: discos como United do Phoenix e 10,000 Hz Legend do Air.

Tendo isto em mente, começamos:

“Tap Out”
Uma explosão de exibições de guitarra te dá um tapa na cara. Os Strokes estão limpando a garganta, tirando meleca do nariz no rock & roll, e aliviando o clima. Rapidamente ela desliza em uma vibe Michael Jackson, funk alegre construído a partir de palmas mudas, pedais de refrão e solos de cocaína. Um Casablancas relaxado canta em arejadas notas altas: “Drifting / You don’t want to know what’s going down.” A banda nunca soou tão suave, e é esse clima que carrega metade das faixas. Já a outra metade…

“All the Time” 
Como mencionei antes, eu não encontro uma semelhança com os dois primeiros álbuns, mas ela é forte e enérgica. Com o som dos cinco tocando juntos em um grande estúdio, ela parece mais com First Impressions of Earth. É o único corte quando seus cérebros são deliberadamente desligados e eles simplesmente tocam por instinto. É também a música menos interessante aqui.

“One Way Trigger” 
Casablancas canta em falsete em muitas músicas de Comedown, mas nunca de forma tão intensa como em “Trigger”. Eu acho que é intencional, já que a letra fala sobre um relacionamento em crise, mas ela certamente foi uma pílula difícil de engolir. De qualquer forma, o vocalista está em sua melhor forma no álbum, exibindo uma notável série e soando o mais engajado de que ele tem sido em uma década. Ele também não tinha cantado tanto assim sobre sexo desajeitado e meninas desde 2003. Só para acrescentar à anormalidade desta música: esta é a única vez que um violão faz uma aparição.

“Welcome to Japan” 
Empacotando dois refrões, um bridge pensativo, discoteca assobiada, um solo fabuloso e uma ótima piada, “Japan” é o melhor single dos Strokes desde “You Only Live Once”, sua “Rapture”. Pelo menos, se RCA souber o que está fazendo. É simplesmente uma explosão. O traço mais negligenciado de Casablancas é o seu senso de humor. Esta é a primeira vez na canção ele lembrou o público que ele é um cara que amava MacGruber e brincou sobre o nome deste álbum ser Rollerbladin’. Especialmente quando ele proclama: “Oh, welcome to Japan!” antes de comicamente cantar “Super dance-y funk down.” Ou algo do tipo. Tanto como está destinada “I didn’t really know this / What kind of asshole drives a Lotus” a ser a linha mais citada, o subsequente refrão quase-rap ganha: “Come on, come on, get with me / I want to see you Wednesday / Come on, come on, come over / Take it off your shoulder / Come on and call me over / We’ve got to get to work now / Sliding it off your shoulder / As we’re falling over. Como quatro músicas inteligentemente compactadas (uma das quais é “Taken for a Fool” do ultimo disco), esta é uma composição imaculada e irritantemente viciante.

“’80s Comedown Machine” 
De alguma forma, nada demonstra a composição detalhada de uma música como uma versão cover em 8-bit. É como encostar o rosto contra um relógio para ver como todos os mecanismos funcionam. Não existem melhores exemplos de que músicas dos Strokes transformados em versões japonesas low-tech. Para ter exemplos, veja aqui e aqui. A abafada faixa-título bate a Internet com um soco, soando um tanto semelhante a um cartucho de Nintendo tocando “Chariots of Fire” e “Lucy in the Sky with Diamonds”. Casablancas flutua levemente sobre os loops sossegados do mellotron. “Why don’t you close the blinds / for the night?”, ele gentilmente pede.

“50/50”
Agora, “All The Time” é o modo como soa um clássico Strokes. E, bem, como Soundgarden um pouco também. Fazendo algo meio Badmotorfinger com um riff tipo “Rusty Cage”, este punker tenso e sarcástico vê Julian retirando seu microfone batido de Is This It de uma caixa empoeirada em seu armário e rosnando com uma ferocidade que não se ouvia desde “Reptilia”. Além disso, se você ouvir atentamente, você pode ouvir o cantor diz no fundo, “…the record for the worst foul shot, in the history of the playoffs*”. Por que não?

“Slow Animals”
Em tempo, Angles será visto como um recomeço. Muito do LP anterior vem como demos para Comedown Machine. O cruzeiro calmante de “Animals” em particular pega algo de “Life is simple in the Moonlight” e “Two Kinds of Happiness”, ajustando os conceitos e polindo as arestas. O que significa que não é muito diferente do Mirage de Fleetwood Mac. Staccato*, guitarras abafadas, sintetizadores oscilantes e o mais curiosamente abafado solo de guitarra da história deles, crescendo lentamente. Mas não se preocupe, um solo estridente segue o verso seguinte. Os caras caem na risada ao final, sublinhando sua camaradagem recentemente redescoberta. Apesar da mudança radical no som e a publicidade bizarra em torno desse lançamento, os cinco estão tão unidos e focados como foram no primeiro mandato de Bush.

“Partners in Crime” 
Zumbidos e batidas bobas de Nick Valensi, muito parecida com a abertura do álbum, ambas zombam do rock clássico e abraçam sua prazerosa ridicularidade. Em cima de uma estrutura de sequência de bateria de Adam Ant e o salto de “Lust for life” (muito parecido com outra música de Strokes com a qual você certamente está familiarizado) por Fabrizio Moretti, todos têm uma explosão. “Leave all your tears alone/ run down your face”, Casablancas canta antes de friamente declarar “I’m on the guest list” com sarcasmo. Como “50/50”, parte da metade do álbum (ah, esse título começa a fazer mais sentido) que sem dúvida poderia caber em Room on Fire

“Chances” 
…Ao contrário dessa dança lenta aqui. Há uma subcultura que sinto vergonha de anunciar que tenho familiaridade. Seria a de garotas-obcecadas-com-desenhos-sonhadores-tipo-fanart-de-Julian-Casablancas. (Procure no Google, é muito engraçado.) Essa é dedicada fortemente a todas as paixonites por aí. Um sintetizador pesado deixa vazar uma saudade de John Hughesian. “I waited for ya / I waited on ya / but now I don’t”, Casablancas canta num alto falsete alto sob luzes cintilantes da discoteca. A mais romântica balada em seu catálogo. Pistas de patins ainda existem, certo?

“Happy Endings”
Ao lado de “Welcome to Japan”, a faixa mais provável para deslumbrar os fãs famintos para que Strokes recuperem a energia apaixonada da primeira era. Como “Slow Animals “e “Japan” misturam ideias de Angles, “Happy Endings” recicla as guitarras e elementos sci-fi  de “Machu Picchu”, acrescenta uma pitada de Room on Fire e termina com algo maravilhosamente eletrizante. Por mais que eu tenha adorado, Angles soa um pouco como peças juntadas num computador por membros de uma banda que dificilmente se comunicavam. Comedown Machine é o som do grupo revigorado, colaborando. Com um título carregado, “Endings” deve ser deslumbrante ao vivo. Se eles fizerem turnê.

“Call It Fate, Call It Karma” 
Fechando as cortinas na curva final, “Fate” estala como a gravação de um calliope* tocando rumba cubana. Trazendo Blur de volta, faz um loop de forma muito semelhante a “Optigan 1,” e o final para  13. “Close the door, not all the way,” Casablancas canta baixinho. “Please understand / We don’t understand.” No refrão, “I waited around…”, que traz à mente uma velha letra dos Strokes que estou deixando de colocar, ele usa suas notas mais altas ainda, trazendo Frankie Valli ou um Beach Boy. Essa mistura de nostalgia e estranheza, poderia figurar em um filme de David Lynch ou Tim Burton. Vamos pensar sobre isso, não está muito longe do que Karen O fez para Frankeenweenie. Yeah Yeah Yeahs passou corajosamente de riffs de guitarra para faiscantes discotecas e baladas ternas. Quem vai dizer que os irmãos de Nova Iorque não podem fazer o mesmo?

*Notas
Playoff: tipo de desempate em algumas competições esportivas nos EUA.
Staccato: uma técnica de execução instrumental ou vocal.
Calliope: tipo de instrumento, veja aqui.

Fonte: timeoutchicago.com

Tradução: Equipe TSBR

BBC: RESENHA DE COMEDOWN MACHINE

Continuam vindo mais e mais resenhas. Essa foi publicada no site da BBC, dia 13 de março, e o original vocês podem conferir no link ao final do post.

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Músicas pop brilhantes – e algumas vezes, isso é tudo que realmente importa. por James Skinner

Pra todos que estavam na imprensa musical na virada do século, The Strokes eram onipresentes.

Aclamados como os salvadores da cena alternativa que tinha crescido e estava estagnando, eles explodiram nas mentes do público com o EP The Modern Age seguido de Is This It, um dos mais perfeitos álbuns de estreia da história recente.

A carreira deles desde então – assim diz o senso comum – é uma curva decrescente: álbuns que nunca alcançaram a referência inicial, brigas internas, lançamentos solo e um longo hiato.

Mas talvez seja a hora do senso comum ser um pouco revisto. Depois de tudo, o triunfo de Is This It não derrubou o apelo da estética desgrenhada nem a ideia de que a banda seja um azarão.

Celebrando o passado enquanto buscam algo contemporâneo e significativo, a estreia foi bem sucedida porque estava cheia de brilhantes canções pop.

E aqui está o negócio: The Strokes sempre tiveram brilhantes músicas pop. Talvez não seja tão fácil esses dias: as gravações para Angles, 2011 teriam sido cheias de tensão.

Claro, talvez a magia inicial não seja sentida tão fortemente. Mas o acertar-e-errar que perpassa toda sua discografia é notável.

O mesmo acontece em Comedown Machine. As músicas aqui podem demorar um pouco mais para emplacar que as predecessoras, mas nenhuma delas tem uma nota falsa. Embora a marcante assinatura do grupo esteja presente e correta, elas formam o pano de fundo para uma ampla variedade de estilos e abordagens.

Mais do que nunca, a ênfase está em um groove apertado como a faixa de abertura Tap Out. A seguinte All the time é bem como manda o figurino, mas os sinais ‘A-Ha’ de One way trigger são um pouco estranhos e mais originais.

A quase-música-título 80’s Comedown Machine é uma grande representante da década, como o nome indica. Ela encontra Julian Casablancas em uma forma pesarosa e mostra como The Strokes se abrem a novas possibilidades aqui.

Welcom to Japan é sedutoramente estranha, Slow Animals apresenta um agridoce refrão, enquanto finalmente Call it Fate, Call it Karma é, de algum modo sonhadora, a coisa mais incomum que eles já fizeram.

Músicas pop brilhantes, então. Algumas vezes, isso é tudo que realmente importa.

Fonte: BBC Reviews

Tradução: Equipe TSBR