TRADUÇÃO DA NOVA ENTREVISTA COM ALBERT HAMMOND JR PARA A NME (SETEMBRO)

Albert anda bem popular na NME… Depois da entrevista na última edição de agosto que traduzimos aqui, o guitarrista falou um pouco mais à revista na edição seguinte, da primeira semana de setembro de 2013. É uma entrevista mais interessante e com maiores detalhes, que nós também traduzimos e que vocês podem ler logo abaixo das scans:

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Drogas, The Strokes, o futuro: Albert está limpo

Na iminência de lançar um novo EP solo pela gravadora de Julian Casablancas, Albert Hammond Jr fala para Matt Wilkinson sobre algumas relações tóxicas

Eu escuto Albert Hammond Jr mesmo antes de poder vê-lo. Deitado num sofá perto da janela do escritório dos empresários dos Strokes no East Village de Manhattan, ele solta um “Hey, maaaan” com um sotaque de Los Angeles, de dentro das sombras. Quando chego nele, ele está rodeado de recordações gloriosas – NME Awards, um grande mapa cheio de alfinetes em cada continente conquistado, discos de ouro, discos de platina, capas de revistas emolduradas, expandidas em proporções além da vida real. Até mesmo as canecas de café aqui possuem as palavras “The Strokes” em letras grandes, destacadas de blockbuster. Parece o lugar perfeito para um grupo de nova iorquinos experientes planejarem a conquista do mundo.

Mas claro, os Strokes não têm feito muito isso ultimamente. Como “Comedown Machine” veio e foi – talvez o mais fraco lançamento de um álbum de uma banda ativa que ainda significa alguma coisa para alguém – o seu silêncio nas rádios falou mais alto, um vasto leque que longas perguntas que são deixadas sem resposta de forma agoniante, sobre a relação interpessoal da banda e o futuro deles como um todo.

Hoje, com Albert organizando o lançamento de AHJ, um novo EP solo na gravadora Cult Records de Julian Casablancas, nós chegamos de alguma forma perto da causa desse silêncio. Desde o início, o seu entusiasmo pelo disco é contagiante. Produzido pelo companheiro de longa data Gus Osberg e com Julian Casablancas dando conselhos numa frequência quase que diária, ele está convencido que as músicas são as melhores que ele já escreveu sozinho. Além disso ele está perto de cair na estrada com sua banda solo – isso é o que ele quer fazer “mais do que tudo”. “Eu tocarei em qualquer lugar, cara, literalmente em qualquer lugar,” ele ri, completando que abrir para o Arctic Monkeys cairia bem. Mas talvez a parte mais atraente da nossa conversa é a própria história do músico de 33 anos. Essa é a sua primeira entrevista como carreira solo em anos, e ele está disposto a se abrir.

A parte engraçada sobre AHJ é que como em seus dois primeiros álbuns solo – Yours To Keep (2006) e ¿Como Te Llama? (2008) – muitas pessoas estão propensas a analisar a fundo as letras das músicas. Como os melhores materiais dos Strokes, suas músicas são de um rock de garagem dançante na superfície. Mas enquanto as composições de Julian são mais enigmáticas, Albert traz uma fachada mais confessional. Em Strange Tidings, onde ele soa assustadoramente como Tom Petty, ele canta “I can’t believe I lost my mind”.

Em 2009, Albert teve uma bem comentada reabilitação, da qual ele falou de certa forma quando os Strokes concederam entrevistas durante o lançamento de Angles, em 2011. Entretanto nenhuma delas foi tão longe em detalhar a verdadeira gravidade dos problemas dele. Heroína foi mencionada, mas então também o cansaço e desaventuras amorosas.

“Na época do segundo álbum, eu diria ‘Eu estava em um lugar escuro, cara, eu estava em um lugar muito escuro’,” ele diz hoje, zombando de seu eufemismo. “Só agora sou capaz de entender ou falar sobre aquele período, e já faz quase quatro anos.” Ele “sempre” usou drogas, diz ele, mas entre 2006-2009 as coisas saíram do controle. “Era, tipo, oxis e cocaína durante os 24, 25, 26. E eu fiquei viciado em heroína depois. Então de 26, 27, até 29…”

Hoje, resplandecente em uma camiseta preta de mangas curtas, jeans preto e Converse preto, ele usa camisetas sempre e todo feliz.

“Não é que eu não estava em um lugar feliz. Eu estava apenas… Deus sabe onde eu estava. Eu estava apenas muito chapado. Eis onde eu estava.”

Quão ruim era?

“Você quer que eu seja específico? Eu não ligo, mas sim, eu usava cocaína, heroína, ketamina. Tudo junto. Dia, noite, 20 vezes por dia. Você sabe, eu estava uma bagunça. Eu olho para trás e não me reconheço. Eu fiz minha própria coisa. Quero dizer, você tem momentos que está bem. E se alguém te encontra, você parece bem. Mas eu lembro que uma vez estava mostrando uma música para alguém e eu estava usando uma camisa curta e [aponta para os pulsos]… estava tudo roxo [reproduz as marcas] tudo por aqui. E então eles perguntavam a alguém – ‘você viu o Albert, ele parece louco?’ Foi quando eu comecei a usar mangas longas. Eu tenho essas tatuagens há muito tempo e eu ainda tenho pessoas chegando para mim, ‘Oh, você fez tatuagens novas?’ E eu fico, ‘Não, você apenas nunca me viu com uma camiseta de mangas curtas…’”

Ele riu quando eu falei que pensei nisso quando eu entrei ali naquela manhã. Ele recentemente leu e ficou surpreso com edição da NME que traz Pete Doherty na capa, onde o integrante do Babyshambles descreveu suas próprias tentativas mal sucedidas de ficar limpo.

“Eu não entendi o que ele estava dizendo. Ele dizia ‘Se você alcança certo ponto e não para, você deve continuar.’ Eu pensei, ‘O que? Não, isso faz sentido para que você pare.’”

Com Peter, eu respondi, acho que é mais sobre deixá-lo a salvo no lugar mais seguro possível ultimamente.

“Eu não quero ser isso. Eu não quero ser assim. Acho que as drogas foram uma boa maneira de sair da própria cabeça. Você curte por algum momento, ela te ajuda a ir a novos lugares. Mas depois faz com que você pare de crescer e te coloca num nível em que você não está tão bom como poderia ser – para mim. Não estou julgando. Usei drogas pesadas e por um longo tempo, então não estou em posição de julgar, de maneira nenhuma julgaria. Alguma coisa clicou um dia, e eu saí dessa.”

Albert está mais aberto para falar sobre essas coisas agora porque “Eu senti que não consegui deixar claro como eu estava me sentindo” durante a divulgação de Angles. Mas ele ainda é cuidadoso sobre o que você imaginaria ser um assunto menos difícil: The Strokes.

“Quando você está fazendo sua própria música que você está empolgado, falar sobre as coisas do The Strokes é sensacionalizado muito tão facilmente.”

Respondo que eu não posso não perguntar sobre os Strokes, que todos os fãs deles ao redor do mundo estão se perguntando o que diabos está acontecendo nesse momento.

“Não, claro, mas também deve existir uma compreensão de que sou um quinto de algo, e eu não quero que pareça aos fãs que eu utilizei essa entrevista para falar coisas, [como se estivesse] tirando proveito [da oportunidade]. Eu guardo com muito carinho o que nós temos juntos como amigos. Só sou muito cuidadoso com como as coisas são ditas, porque eu não quero que algo seja interpretado de outra forma e então me tornar o rosto de quem disse tal coisa.”

Ele não se importa em falar sobre The Strokes, mas ele não vai de fato falar sobre eles. Sobre os planos futuros? Nada concreto aparentemente. Expectativas de uma turnê? “Sem comentários.”

Pergunto a ele a razão da banda não conceder entrevistas sobre o último disco.

“Nós apenas decidimos mantê-lo assim [com uma tampa]. Pensamos que seria legal manter um silêncio sobre ele, ver o que um disco faria se você pudesse apenas ouvi-lo.”

Um ponto justo, mas que se confronta com o que ele disse sobre a campanha de entrevistas do Angles, onde a banda foi caracterizada como se estivessem entre desacordos. “Olha, eu sinto que a imprensa entendeu tudo errado,” ele diz daquele período.

Então por que não juntar os cinco agora para deixar tudo esclarecido?

“Mas isso seria o…? Apenas parece que… Eu nem sei as palavras. Seria apenas esquisito.”

Pergunto onde, falando figurativamente, os cinco Strokes estão naquele minuto, e ele dá uma imagem mais agradável (“Estamos em um ótimo lugar!”). Ele tocou com o guitarrista Nick Valensi em um tibuto a Bob Dylan em Dublin recentemente, é ainda muito próximo do baixista Nikolai Fraiture e baterista Fab Moretti.

Eu me coloco como testemunha ocular durante a sessão de fotos para a NME. Estávamos fora do escritório, nas ruas ensolaradas de Manhattan com Albert, quando no fim da rua avistamos a inconfundível figura de um Fab bigodudo. Os dois se vêem, acenam amigavelmente, e continuam com seus afazeres. Eles vão se falar mais tarde, Albert diz.

Agora, ele está pronto para voltar pro EP. Ele pega o celular para nos mostrar a capa, fala animado sobre como ele ficou tão viciado em Metallica que deve inclusive fazer cover de uma de suas músicas, divaga sobre seus discos favoritos (de Car Trouble do Adam & The Ants, a Is This Real? do Wipers). Ele parece estar muito feliz de ainda estar aqui, tocando música, alegremente sóbrio.

“Nos primeiros dois anos você está meio que na borda e vendo o rio ir passando, e isso é o mundo,” ele diz sobre a vida sem as drogas, “Você fica tipo, ‘Por que não sou parte disso? Como eu entro?’ Mas você simplesmente não pode. Você é um intruso.”

Albert faz um balanço por um segundo quando pergunto onde ele está pisando agora.

“Sabe… estou confortável comigo mesmo, eu acho.”

Cult Status

Como é a atitude do Julian sendo o dono de uma gravadora?

Albert: “Falei com Julian sobre querer lançar algo na Cult Records desde que ele a começou. Ele fez, ‘Vamos lançar uma música.’ Então eu falei, ‘Tudo bem, vou começar a trabalhar com o Gus [Oberg] e talvez depois que fizermos algumas músicas terá uma que seja divertida.’ Eu mandei para ele a primeira, Cooker Ship, e ele ficou aturdido. Recebi um e-mail de volta com um milhão de ‘sim’! Não ia ser originalmente um EP, ia ser apenas uma música, depois iam ser duas, depois seriam três. Julian ficou, ‘vamos coroar nessas três.’ Mas depois eu fiz, ‘Bem, eu tenho mais uma, e ele disse, ‘Essa é boa, faremos quatro.’ Então novamente, eu fiz ‘…eu tenho mais uma.’ Ele fez, ‘Nós temos que parar agora… mas essa foi a sua melhor!’”