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Julian Casablancas em conversa com Jennifer Herrema – sobre tédio, estilo e as virtudes de se clonar

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Entrevista publicada em 01/11/2018 na Hero. Introdução por Alex James Taylor. Entrevista por Jennifer Herrema. Fotos por Georgia Mitropoulos

Julian Casablancas está sentado no camarim do anfiteatro Starlight em Kansas City. Em turnê com sua banda The Voidz, tocando com Beck, eles estarão logo no palco para tocar faixas de seu segundo disco, Virtue.

Lançado no começo desse ano, essa segunda oferta da banda é um disco espiral e psicodélico. Se a estréia da banda de 2014 – Tyranny – coçou a cabeça, esse disco é mais uma massagem: um trabalho nas feridas e tensões. Seguindo dos solos esticados e fora de tom para sintetizadores sci-fi através de distorções de auto-tunes e uma série de tropos anos 80, Casablancas e companhia provam é possível encontrar conforto fora da caixa.

Além da música, o etos robusto e misturado pulsa na trajetória da banda: um conjunto desordenado, o grupo inclui músicos de vários diferentes grupos e projetos, todos reunidos pela amizade, apreciação musical e uma tendência a forçar os limites da ética até que se dissolvam deliciosamente.

É um modo de operação sônico – e esculpido – por uma certa Jennifer Herema, líder iconoclasta de Royal Trux, RTX e mais tarde, Black Bananas (também entrevistadora de meio período). Fã de Royal Trux, aqui Casablancas e seu companheiro de banda Jacob “Jake” Bercovici se conectam com Herrema via Skype, do camarim em Kansas City até Herrema na costa oeste.

Jennifer Herrema: Você está em turnê, certo? Indo bem?

Julian Casablancas: Sim, está indo bem.

JH: Você consegue me ouvir? Disseram que eu murmuro bastante.

JC: Conseguimos te ouvir. Me dizem que murmuro muito também, acho que é uma forma estranha de economizar energia.

JH: Sim, acho que você tem razão. Não que eu esteja sussurrando pra você, porque estou tentando ser profissional aqui. Mas sim, acho que você está certo, metade das coisas que murmuro não são tão importantes, quer dizer, falo comigo mesma. Eu tinha um gato, então agora é como se falasse comigo mesma porque não há mais gato [risos]

JC: Você tem tocado ultimamente?

JH: Sim. Acabamos de mixar um disco novo pra Royal Trux, ontem. Então estivemos trabalhando muito ouvindo as mesmas músicas de novo e de novo, sabe como é, certo? Então, onde vocês gravaram seu último disco, Virtue?

Jacob “Jake” Bercovici: Gravamos a maior parte em Los Angeles na casa do Beardo, meio que um pouco num estúdio aqui e ali, e um quarto, talvez.

JH: Por aí, por aí. Foi um processo? Vocês meio que começaram e então com o tempo… ou vocês disseram estamos fazendo um disco e então boom, estavam nisso?

JC: Erm, tivemos meio que uma coisa oficial quando passamos um mês num estúdio em Los Angeles e rascunhamos tipo 100 ideias, limitamos algumas e então fomos pra garagem do Beardo e colocávamos uma música em um dia ou a cada dois ou três dias.

JH: Legal, então não ficaram vagando por dois anos entre os discos? Ou quatro anos de jornada, certo? Foi só um intervalo?

JC: Sim, foi um longo processo, acho que os vocais levaram muito tempo, pra estarmos todos no mesmo lugar levou tempo. Mas sim, estamos sempre meio ocupados de certa forma.

JH: Você tem família, certo?

JC: Sim, tenho.

JH: Estar em diferentes lugares e ter diferentes responsabilidades realmente tende a reduzir o ritmo. Com a Royal Trux todo mundo está disperso, então juntar todos é difícil. Mesma coisa.

JB: A velocidade das gravações muda de quando você tem 19 anos e faz tudo em um dia ou o que for.

JH: Totalmente, também tem muito mais música. Não é como se eu ouvisse, realmente. Mas tem um monte de falação, conteúdo em todo lugar. Então acho que é interessante quando as pessoas fazem um disco que é mais reflexivo e toma tempo pra não jogar mais conteúdo no mundo de qualquer jeito.

JC: acho que o problema maior é turnê, se não tivéssemos que fazer turnê poderíamos facilmente fazer um disco por ano. Atrasa em termos de escrita, ao menos pra mim. É como se você tivesse que estar fora da turnê por alguns meses para juntar seus escritos em ideias e músicas.

JH: Então com Tyranny e Virtue, você escolheu títulos de uma palavra, estou no meio do processo de encontrar um título para meu disco, então estou interessada.

JC: Sim, bem, acho que estávamos meio que tentando reunir os títulos em um sentido. Uma das discussões que tivemos…é engraçado, minha mãe não sugeriu o título mas ela estava tipo “Ok, você disse que está contra algo, então a favor de que você está?” Então é mudar pra encontrar o lado positivo.

JH: Isso é legal. Totalmente sem sentido, mas eu estava ouvindo Tyranny… Blue Öyster Cult é uma das minhas bandas favoritas, então Tyranny and Mutation é um dos meus discos favoritos de todos os tempos e conta uma história esquisita. Estava ouvindo Virtue e sei que você é de Nova Iorque e a banda se chama The Voidz, você obviamente teve alguma influência de Richard Hell.

JC: Pra mim, a maior influência … eu lembro quando comecei e as pessoas nos comparavam com outras bandas de Nova Iorque, especialmente Television. Mas pra mim, aquele mundo de Nova Iorque começou com The Velvet Underground, eles foram meio que os padrinhos, de certa forma. Sendo assim, se você vive em Nova Iorque, você vai ser influenciado por eles e acho que é o porquê sempre vai haver similaridades entre as bandas. Eu não ouvi Television tanto assim, de fato eu acho que só os ouvi mais tarde. Então foi mais Velvet Underground e estar em Nova Iorque que nos influenciou, mais que a própria cena de Nova Iorque.

JH: Sim, entendi. Sua voz meio que lembra um mix entre Tom Verlaine e, acho que talvez Alex Chilton um pouquinho, pra mim.

JC: Tyranny foi gravado logo acima da Strand Bookstore em Nova Iorque onde a gerente tem um sobrado e ela aluga para pessoas artísticas e ecléticas, então havia compositores, gravadoras, e nós basicamente assumimos uma voz no estúdio e iríamos toda noite perto das sete, ou a hora que a Strand fechasse. De qualquer maneira, eu vi Tom Verlaine o tempo todo.

JH: Você falou com ele?

JC: Não.

JH: Droga.

JC: Eu sei, você nunca sabe o que fazer nessas situações. É difícil sentir a energia e pareceu que ele não estaria a fim.

JH: É, acho que não. Eu ouvi que ele se leva muito a sério. Eu deveria fazer uma entrevista com ele quando o último Black Bananas saiu, 4 ou 5 anos atrás. Minhas perguntas não eram todas sérias, mas eu conhecia sua ex-mulher muito bem, mas ele não estava a fim. Ele queria falar sobre a natureza linear de como esse som de Nova Iorque se transformou. Eu não liguei muito para sua interpretação.

JC: [risos] Mas com Television, eu não me conecto com sua tendência para finalizações falsificadas. Eu não sei se eles não sabem como terminar uma música ou se eles não gostam de terminar uma música, mas lembro de vê-los uma vez nove anos atrás e eles estavam [Jullian canta] ““And the songggg isss endingggg nowwwwwww” [batida] “But maybe it’s notttttt.”. Tipo, dez diferentes finalizações, bem dramáticas, “And now we’re out of the song!”. E então voltavam a ela.

JH: [risos] Eu nunca os vi ao vivo. Quando era muito jovem, Little Johnny Jewel era uma das minhas músicas favoritas, meu primo tocava pra mim e era formidável. Você descobriu alguma música nova ou algo recentemente que ficou com você, mas uma que não te leva a um tempo nostálgico?

JC: Não uma música, mas uma coisa que me fascinou recentemente é o tédio, ou como você cansa de algo. Sobre ouvir uma música sem parar, pra mim, é a coisa mais triste da música no fim. Digamos que você ouviu a música mais incrível de todos os tempos, você a ouve, eu vou ficar cansado dela.

JH: É verdade. Eu falei sobre isso antes, algumas músicas só representam  padrões em minha vida agora, tipo “Oh, essa era a música quando eu fiz isso”. Ou você ouve uma música e imediatamente te leva a uma certa emoção. Você entende, certo?

JC: Eu tenho isso mais com cheiros, acho.

JB: Eu lembro de quando era criança e ouvi Joe Jackson a primeira vez, eu lembro de ouvir um trilhão de vezes. Eu nunca a coloco pra tocar, mas se ouvir, tem o mesmo efeito que tinha.

JC: Sim, se eu descubro uma música que realmente gosto, eu tento não ouvir.

JH: Você tenta preservar? Eu entendo isso.

JC: Eu fiz o contrário quando era mais jovem, se eu gostava de uma música, eu ouvia incessantemente. Mas estou fascinado com o conceito de ficar entediado com algo, em geral, uma vista, uma casa, amigos, qualquer coisa. Pra mim, há qualquer coisa de fascinante em ficar cansado de algo, é como uma coisa evolutiva. É da humanidade, não é uma lei universal, você poderia ser um parasita preso num monte e apreciar até morrer. Acho que é algo relacionado a evoluir e querer continuar caçando.

JH: E seguir em frente.

JC: Sim, você não pode estar em um lugar ou sua tribo vai ser morta, ou que quer que seja.

JH: Haveriam muitos fãs de Beatles abatidos.

JC: [risos]. Sim, é uma chatice. Você encontra algo que gosta e seria bom apreciar pra sempre.

JH: Mas tem a ver com a química do cérebro em mudança constante, certo? Como lembrar de quando era criança e que tinha que ir à escola e o verão estava a milhões de anos, mas agora, ao menos pra mim, não parece tão distante.

JC: Isso foi tipo 10% da sua memória.

JH: Exatamente, eu só estou falando coisas, não sou uma cientista, mas acho que o cérebro muda com o tempo e faz as coisas parecerem diferentes.

JC: Um exemplo é que você pode estar fazendo algo e não exatamente apreciando, mas então quando acaba você olha pra trás como uma memória afeiçoada e você está “Por que eu não aproveitei tanto quando estava lá?”

JH: Exatamente! Eu sinto dessa forma, não é assim com tudo, mas como estar no momento, dividir tudo em pequenas partes e então olhar pra trás e ver o quadro todo.

JC: É uma lição de viver o momento, é como olhar uma fotografia, talvez você não estava se divertindo, mas você olha a fotografia e pode sentir uma saudade alegre daquele momento.

JB: Sim, como uma experiência distorcida …[ a linha cai]

JH: Espere, você soa como Darth Vader.

JC: [risos] grande elogio.

JH: Vocês tem um estilo impecável, qual sua relação com moda e estilo? Me parece que vocês não são autoconscientes sobre ter um estilo tão legal. Tipo meu ex-marido, ele colocaria a pior blusa feminina porque eu dizia que a outra era legal. Quão importante é a imagem pra vocês?

JC: Acho que pra mim, pessoalmente, imagem é algo com o que luto filosoficamente numa interação humana básica cara a cara. A imagem, pra mim, filosoficamente tem quase zero importância, mas acho que quando você está levando música, é quase uma tática, tem uma importância incrível. Eu lembro assim que comecei a ver bandas, quando você está assistindo a eles no palco você está olhando pra que tipo de cinto usam, seus sapatos, e tudo influencia como você ouve a música, feliz ou infelizmente. Então, pra mim, eu lembro de ter me casado numa igreja e haviam tubos enormes de órgãos que não funcionaram, então eu trouxe um Casio pequeno com a configuração de órgão e começou a tocar coros de igreja e as pessoas que trabalhavam lá estavam olhando aqueles tubos quase em lágrimas tipo “É lindo! Eu nunca tinha ouvido.” E eu estava “Não, é o teclado”. Mas porque aqueles tubos eram tão bonitos, a música estava levando as pessoas às lágrimas. Então, sim. Eu uso coisas legais porque sei que vai fazer a música soar de certo modo. Mas lá no fundo eu não dou a mínima.

JH: Sim, muitas coisas legais são definidas por estilistas ou o que for, mas há um monte de pessoas usando coisas legais e não funciona porque não parece com eles. Mas parece que você toma suas próprias decisões sobre isso, você não pode simplesmente pegar um estilista pra fazer isso, você obviamente tem jeito pra coisa.

JC: Obviamente crescer em Nova Iorque, você vê os estilos antes que realmente aconteçam, então isso me influenciou, sim, mas mesmo assim, eu não era um garoto estiloso, tem mais a ver com quando comecei na música.  Mas de novo, é sobre se editar, seja na música, ou nas roupas ou o que for. Às vezes quando coloco algo e olho no espelho, penso sobre o que alguém que me odeia diria. Eu coloco algo e “Oh, um atleta confuso” e eu tiro e coloco outra coisa e é como “Uau, você está tentando demais, cara”. Eu tenho que me insultar no espelho para descobrir o que eu quero, então quando coloco algo e estou “Oh, não sei qual a desse cara, mas estou interessado”, é o que eu vou usar [risos]

JH: Sim. Estou sendo sincera, você faz isso muito bem. Você alguma vez diz aos caras algo como, não use shorts no palco ou algo assim?

JC: [risos]

JB: Beardo disse algo outro dia, ele disse “usar shorts no palco é suicídio de carreira”.

JH: [risos]

JC: Beardo e eu na banda, acho que somos meio que a polícia da moda na banda. Não repreendemos ninguém, somos todos amigos, mas sabe, você está numa banda e alguém “Hey, o que você acha disso?” e você recebe olhares inexpressivos.

JH: Então, ele não vai usar esses shorts no palco? [aponta para Jake]

JB: Oh, Deus, não [ risos]. Eu fico com calor, tenho sangue quente então preciso me manter o mais fresco possível.

JC: Está muito quente em Kansas City agora, terrivelmente quente.

JH: Se você pudesse se clonar, quantos colocaria na reserva?

JC: se eu pudesse me clonar?

JH: Ok, digamos que você tem uma oportunidade de se clonar mas cada vez sai um pouquinho desbotado. Quantas vezes faria isso?

JC: Como Michael Keaton no filme Multiplicity?

JH: Sim!

JC: ahn

JH: Eu faria duas vezes.

JC: Eu tenho uma pergunta maior, se você pudesse se clonar, você se clonaria? E se não se deteriorasse em nada, quantas você faria?

JH: Se não deteriorasse nada e a memória ficasse no mesmo lugar de quando o DNA foi extraído … acho que seis. Suficiente para 300 anos, em caso de emergências.

JC: [risos] Eu não faria nenhum porque ficaria paranóico que eles causassem desordem.