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Julian Casablancas em conversa com Jennifer Herrema – sobre tédio, estilo e as virtudes de se clonar

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Entrevista publicada em 01/11/2018 na Hero. Introdução por Alex James Taylor. Entrevista por Jennifer Herrema. Fotos por Georgia Mitropoulos

Julian Casablancas está sentado no camarim do anfiteatro Starlight em Kansas City. Em turnê com sua banda The Voidz, tocando com Beck, eles estarão logo no palco para tocar faixas de seu segundo disco, Virtue.

Lançado no começo desse ano, essa segunda oferta da banda é um disco espiral e psicodélico. Se a estréia da banda de 2014 – Tyranny – coçou a cabeça, esse disco é mais uma massagem: um trabalho nas feridas e tensões. Seguindo dos solos esticados e fora de tom para sintetizadores sci-fi através de distorções de auto-tunes e uma série de tropos anos 80, Casablancas e companhia provam é possível encontrar conforto fora da caixa.

Além da música, o etos robusto e misturado pulsa na trajetória da banda: um conjunto desordenado, o grupo inclui músicos de vários diferentes grupos e projetos, todos reunidos pela amizade, apreciação musical e uma tendência a forçar os limites da ética até que se dissolvam deliciosamente.

É um modo de operação sônico – e esculpido – por uma certa Jennifer Herema, líder iconoclasta de Royal Trux, RTX e mais tarde, Black Bananas (também entrevistadora de meio período). Fã de Royal Trux, aqui Casablancas e seu companheiro de banda Jacob “Jake” Bercovici se conectam com Herrema via Skype, do camarim em Kansas City até Herrema na costa oeste.

Jennifer Herrema: Você está em turnê, certo? Indo bem?

Julian Casablancas: Sim, está indo bem.

JH: Você consegue me ouvir? Disseram que eu murmuro bastante.

JC: Conseguimos te ouvir. Me dizem que murmuro muito também, acho que é uma forma estranha de economizar energia.

JH: Sim, acho que você tem razão. Não que eu esteja sussurrando pra você, porque estou tentando ser profissional aqui. Mas sim, acho que você está certo, metade das coisas que murmuro não são tão importantes, quer dizer, falo comigo mesma. Eu tinha um gato, então agora é como se falasse comigo mesma porque não há mais gato [risos]

JC: Você tem tocado ultimamente?

JH: Sim. Acabamos de mixar um disco novo pra Royal Trux, ontem. Então estivemos trabalhando muito ouvindo as mesmas músicas de novo e de novo, sabe como é, certo? Então, onde vocês gravaram seu último disco, Virtue?

Jacob “Jake” Bercovici: Gravamos a maior parte em Los Angeles na casa do Beardo, meio que um pouco num estúdio aqui e ali, e um quarto, talvez.

JH: Por aí, por aí. Foi um processo? Vocês meio que começaram e então com o tempo… ou vocês disseram estamos fazendo um disco e então boom, estavam nisso?

JC: Erm, tivemos meio que uma coisa oficial quando passamos um mês num estúdio em Los Angeles e rascunhamos tipo 100 ideias, limitamos algumas e então fomos pra garagem do Beardo e colocávamos uma música em um dia ou a cada dois ou três dias.

JH: Legal, então não ficaram vagando por dois anos entre os discos? Ou quatro anos de jornada, certo? Foi só um intervalo?

JC: Sim, foi um longo processo, acho que os vocais levaram muito tempo, pra estarmos todos no mesmo lugar levou tempo. Mas sim, estamos sempre meio ocupados de certa forma.

JH: Você tem família, certo?

JC: Sim, tenho.

JH: Estar em diferentes lugares e ter diferentes responsabilidades realmente tende a reduzir o ritmo. Com a Royal Trux todo mundo está disperso, então juntar todos é difícil. Mesma coisa.

JB: A velocidade das gravações muda de quando você tem 19 anos e faz tudo em um dia ou o que for.

JH: Totalmente, também tem muito mais música. Não é como se eu ouvisse, realmente. Mas tem um monte de falação, conteúdo em todo lugar. Então acho que é interessante quando as pessoas fazem um disco que é mais reflexivo e toma tempo pra não jogar mais conteúdo no mundo de qualquer jeito.

JC: acho que o problema maior é turnê, se não tivéssemos que fazer turnê poderíamos facilmente fazer um disco por ano. Atrasa em termos de escrita, ao menos pra mim. É como se você tivesse que estar fora da turnê por alguns meses para juntar seus escritos em ideias e músicas.

JH: Então com Tyranny e Virtue, você escolheu títulos de uma palavra, estou no meio do processo de encontrar um título para meu disco, então estou interessada.

JC: Sim, bem, acho que estávamos meio que tentando reunir os títulos em um sentido. Uma das discussões que tivemos…é engraçado, minha mãe não sugeriu o título mas ela estava tipo “Ok, você disse que está contra algo, então a favor de que você está?” Então é mudar pra encontrar o lado positivo.

JH: Isso é legal. Totalmente sem sentido, mas eu estava ouvindo Tyranny… Blue Öyster Cult é uma das minhas bandas favoritas, então Tyranny and Mutation é um dos meus discos favoritos de todos os tempos e conta uma história esquisita. Estava ouvindo Virtue e sei que você é de Nova Iorque e a banda se chama The Voidz, você obviamente teve alguma influência de Richard Hell.

JC: Pra mim, a maior influência … eu lembro quando comecei e as pessoas nos comparavam com outras bandas de Nova Iorque, especialmente Television. Mas pra mim, aquele mundo de Nova Iorque começou com The Velvet Underground, eles foram meio que os padrinhos, de certa forma. Sendo assim, se você vive em Nova Iorque, você vai ser influenciado por eles e acho que é o porquê sempre vai haver similaridades entre as bandas. Eu não ouvi Television tanto assim, de fato eu acho que só os ouvi mais tarde. Então foi mais Velvet Underground e estar em Nova Iorque que nos influenciou, mais que a própria cena de Nova Iorque.

JH: Sim, entendi. Sua voz meio que lembra um mix entre Tom Verlaine e, acho que talvez Alex Chilton um pouquinho, pra mim.

JC: Tyranny foi gravado logo acima da Strand Bookstore em Nova Iorque onde a gerente tem um sobrado e ela aluga para pessoas artísticas e ecléticas, então havia compositores, gravadoras, e nós basicamente assumimos uma voz no estúdio e iríamos toda noite perto das sete, ou a hora que a Strand fechasse. De qualquer maneira, eu vi Tom Verlaine o tempo todo.

JH: Você falou com ele?

JC: Não.

JH: Droga.

JC: Eu sei, você nunca sabe o que fazer nessas situações. É difícil sentir a energia e pareceu que ele não estaria a fim.

JH: É, acho que não. Eu ouvi que ele se leva muito a sério. Eu deveria fazer uma entrevista com ele quando o último Black Bananas saiu, 4 ou 5 anos atrás. Minhas perguntas não eram todas sérias, mas eu conhecia sua ex-mulher muito bem, mas ele não estava a fim. Ele queria falar sobre a natureza linear de como esse som de Nova Iorque se transformou. Eu não liguei muito para sua interpretação.

JC: [risos] Mas com Television, eu não me conecto com sua tendência para finalizações falsificadas. Eu não sei se eles não sabem como terminar uma música ou se eles não gostam de terminar uma música, mas lembro de vê-los uma vez nove anos atrás e eles estavam [Jullian canta] ““And the songggg isss endingggg nowwwwwww” [batida] “But maybe it’s notttttt.”. Tipo, dez diferentes finalizações, bem dramáticas, “And now we’re out of the song!”. E então voltavam a ela.

JH: [risos] Eu nunca os vi ao vivo. Quando era muito jovem, Little Johnny Jewel era uma das minhas músicas favoritas, meu primo tocava pra mim e era formidável. Você descobriu alguma música nova ou algo recentemente que ficou com você, mas uma que não te leva a um tempo nostálgico?

JC: Não uma música, mas uma coisa que me fascinou recentemente é o tédio, ou como você cansa de algo. Sobre ouvir uma música sem parar, pra mim, é a coisa mais triste da música no fim. Digamos que você ouviu a música mais incrível de todos os tempos, você a ouve, eu vou ficar cansado dela.

JH: É verdade. Eu falei sobre isso antes, algumas músicas só representam  padrões em minha vida agora, tipo “Oh, essa era a música quando eu fiz isso”. Ou você ouve uma música e imediatamente te leva a uma certa emoção. Você entende, certo?

JC: Eu tenho isso mais com cheiros, acho.

JB: Eu lembro de quando era criança e ouvi Joe Jackson a primeira vez, eu lembro de ouvir um trilhão de vezes. Eu nunca a coloco pra tocar, mas se ouvir, tem o mesmo efeito que tinha.

JC: Sim, se eu descubro uma música que realmente gosto, eu tento não ouvir.

JH: Você tenta preservar? Eu entendo isso.

JC: Eu fiz o contrário quando era mais jovem, se eu gostava de uma música, eu ouvia incessantemente. Mas estou fascinado com o conceito de ficar entediado com algo, em geral, uma vista, uma casa, amigos, qualquer coisa. Pra mim, há qualquer coisa de fascinante em ficar cansado de algo, é como uma coisa evolutiva. É da humanidade, não é uma lei universal, você poderia ser um parasita preso num monte e apreciar até morrer. Acho que é algo relacionado a evoluir e querer continuar caçando.

JH: E seguir em frente.

JC: Sim, você não pode estar em um lugar ou sua tribo vai ser morta, ou que quer que seja.

JH: Haveriam muitos fãs de Beatles abatidos.

JC: [risos]. Sim, é uma chatice. Você encontra algo que gosta e seria bom apreciar pra sempre.

JH: Mas tem a ver com a química do cérebro em mudança constante, certo? Como lembrar de quando era criança e que tinha que ir à escola e o verão estava a milhões de anos, mas agora, ao menos pra mim, não parece tão distante.

JC: Isso foi tipo 10% da sua memória.

JH: Exatamente, eu só estou falando coisas, não sou uma cientista, mas acho que o cérebro muda com o tempo e faz as coisas parecerem diferentes.

JC: Um exemplo é que você pode estar fazendo algo e não exatamente apreciando, mas então quando acaba você olha pra trás como uma memória afeiçoada e você está “Por que eu não aproveitei tanto quando estava lá?”

JH: Exatamente! Eu sinto dessa forma, não é assim com tudo, mas como estar no momento, dividir tudo em pequenas partes e então olhar pra trás e ver o quadro todo.

JC: É uma lição de viver o momento, é como olhar uma fotografia, talvez você não estava se divertindo, mas você olha a fotografia e pode sentir uma saudade alegre daquele momento.

JB: Sim, como uma experiência distorcida …[ a linha cai]

JH: Espere, você soa como Darth Vader.

JC: [risos] grande elogio.

JH: Vocês tem um estilo impecável, qual sua relação com moda e estilo? Me parece que vocês não são autoconscientes sobre ter um estilo tão legal. Tipo meu ex-marido, ele colocaria a pior blusa feminina porque eu dizia que a outra era legal. Quão importante é a imagem pra vocês?

JC: Acho que pra mim, pessoalmente, imagem é algo com o que luto filosoficamente numa interação humana básica cara a cara. A imagem, pra mim, filosoficamente tem quase zero importância, mas acho que quando você está levando música, é quase uma tática, tem uma importância incrível. Eu lembro assim que comecei a ver bandas, quando você está assistindo a eles no palco você está olhando pra que tipo de cinto usam, seus sapatos, e tudo influencia como você ouve a música, feliz ou infelizmente. Então, pra mim, eu lembro de ter me casado numa igreja e haviam tubos enormes de órgãos que não funcionaram, então eu trouxe um Casio pequeno com a configuração de órgão e começou a tocar coros de igreja e as pessoas que trabalhavam lá estavam olhando aqueles tubos quase em lágrimas tipo “É lindo! Eu nunca tinha ouvido.” E eu estava “Não, é o teclado”. Mas porque aqueles tubos eram tão bonitos, a música estava levando as pessoas às lágrimas. Então, sim. Eu uso coisas legais porque sei que vai fazer a música soar de certo modo. Mas lá no fundo eu não dou a mínima.

JH: Sim, muitas coisas legais são definidas por estilistas ou o que for, mas há um monte de pessoas usando coisas legais e não funciona porque não parece com eles. Mas parece que você toma suas próprias decisões sobre isso, você não pode simplesmente pegar um estilista pra fazer isso, você obviamente tem jeito pra coisa.

JC: Obviamente crescer em Nova Iorque, você vê os estilos antes que realmente aconteçam, então isso me influenciou, sim, mas mesmo assim, eu não era um garoto estiloso, tem mais a ver com quando comecei na música.  Mas de novo, é sobre se editar, seja na música, ou nas roupas ou o que for. Às vezes quando coloco algo e olho no espelho, penso sobre o que alguém que me odeia diria. Eu coloco algo e “Oh, um atleta confuso” e eu tiro e coloco outra coisa e é como “Uau, você está tentando demais, cara”. Eu tenho que me insultar no espelho para descobrir o que eu quero, então quando coloco algo e estou “Oh, não sei qual a desse cara, mas estou interessado”, é o que eu vou usar [risos]

JH: Sim. Estou sendo sincera, você faz isso muito bem. Você alguma vez diz aos caras algo como, não use shorts no palco ou algo assim?

JC: [risos]

JB: Beardo disse algo outro dia, ele disse “usar shorts no palco é suicídio de carreira”.

JH: [risos]

JC: Beardo e eu na banda, acho que somos meio que a polícia da moda na banda. Não repreendemos ninguém, somos todos amigos, mas sabe, você está numa banda e alguém “Hey, o que você acha disso?” e você recebe olhares inexpressivos.

JH: Então, ele não vai usar esses shorts no palco? [aponta para Jake]

JB: Oh, Deus, não [ risos]. Eu fico com calor, tenho sangue quente então preciso me manter o mais fresco possível.

JC: Está muito quente em Kansas City agora, terrivelmente quente.

JH: Se você pudesse se clonar, quantos colocaria na reserva?

JC: se eu pudesse me clonar?

JH: Ok, digamos que você tem uma oportunidade de se clonar mas cada vez sai um pouquinho desbotado. Quantas vezes faria isso?

JC: Como Michael Keaton no filme Multiplicity?

JH: Sim!

JC: ahn

JH: Eu faria duas vezes.

JC: Eu tenho uma pergunta maior, se você pudesse se clonar, você se clonaria? E se não se deteriorasse em nada, quantas você faria?

JH: Se não deteriorasse nada e a memória ficasse no mesmo lugar de quando o DNA foi extraído … acho que seis. Suficiente para 300 anos, em caso de emergências.

JC: [risos] Eu não faria nenhum porque ficaria paranóico que eles causassem desordem.

Entrevista: Julian Casablancas para Redacted Tonight

Julian Casablancas foi entrevistado por Lee Camp para o Redacted Tonight. A conversa girou em torno da música e de política. Fizemos uma tradução da maior parte da conversa, tentando manter o ritmo da entrevista. Esperamos que gostem!

L – Tenho aqui ninguém menos que Julian Casablancas, o líder dos Strokes e de sua nova banda The Voidz. Ele tem espantado algumas pessoas recentemente com um tipo de música politicamente profunda e provocativa com The Voidz.

Então, queria falar com ele e ouvir mais sobre o impacto da música em nossa cultura e o que ele sente que precisa mudar. Além disso, eu vou abrir pra The Voidz sexta-feira e sábado… então, sem mais, aqui minha conversa com Julian Casablancas. Obrigado por se juntar a mim, estou honrado em tê-lo aqui, irmão, é um prazer.

J- Obrigado pelo convite pro seu programa ou internet ou onde quer que estejamos.

L – Um pouco de cada. Um pouco na TV e um pouco na internet. Então, para as duas pessoas por aí que não sabem que você tem uma banda de sucesso, The Strokes, vocês ainda saem em turnê juntos, e que agora você tem outra banda, The Voidz, que tem um monte de ideias políticas nas músicas e letras, o que é em parte a razão pra eu querer conversar com você… Por que você criou The Voidz?

J – Pra mim, é uma evolução de uma mesma missão, acho. Talvez dois lados da mesma moeda. Não sei como eu diria. The Voidz tem sido meu foco principal recentemente e é talvez um pouco mais sombrio ou underground ou de vanguarda, não sei como descrever. Pra mim, The Strokes está sempre lá, é família, eles serão sempre irmãos… não sei, como percebo, é como se fosse um filme. Você faz filmes diferentes e não significa que só vai trabalhar com um grupo de pessoas ou nunca mais vai trabalhar com aquelas pessoas de novo.

L – Ambas são excelentes. Ouvi o último álbum, eu adoro, claro, há uma música que me pegou, Pyramid of bones, a última do disco. Como você disse, é bastante sombrio e cobre vários tópicos que acho que acho que algumas pessoas não falam, vários artistas se esquivam, pessoas em geral se esquivam de falar de certos tópicos. O que aquela música significa pra você, o que te levou a fazer aquela música?

J – Começou meio como uma piada. Jake, da banda, tem uma voz em barítono, baixa e está sempre fazendo vozes e tem algo que ele faz, é como um espírito de um velho escravo, algo assim… não ouça a banda ‘branca’ (risos). Era uma piada e estávamos trabalhando num tipo de riff como Black Sabbath e as coisas se encaixaram. É  meio sarcástico e … lembro de ler recentemente uma citação de James Baldwin e ele fala sobre o poder ‘branco’, não de pessoas brancas, é mais como falar do poder como o do Chase Manhattan Bank ou algo do tipo.

– James Baldwin, ele foi um autor e orador brilhante. Quando eu estava falando com você antes, você chamou Martin Luther King de, não sei, se era como um líder espiritual ou algo assim. O que ele significa pra você?

J – Sabe, depois de Bush, da segunda vez que ele ganhou, foi meio que um choque pra mim e um tipo de despertar e comecei a ler muito. De tudo que eu li, acho que sim, a autobiografia de Martin Luther King, os discursos, obviamente, pra mim ele é tipo, ele é imagem de “dê uma chance à paz”. Pra mim ele está em outro nível em seu intelecto filosófico e sua mente genialmente estratégica. Pra mim, mostra como se você soubesse como ganhar. Não é só sobre estar certo, é sobre ser esperto, ser mais esperto que o oponente… obviamente você precisa disso. Pra fazer o que é certo e o que acredita ser o certo, você precisa disso se quer ajudar as pessoas, mas acho que ele o que ele mostrou é, acho que é, como conseguir…

P – Sabe, acho que em qualquer momento histórico há muito que você, sabe, simplificar ou reduzir ou resumir a algo menor para comprimir a verdade, mas precisou um bocado de estratégia para vencer a luta dos direitos civis e havia um grande debate sobre como conseguir isso. Então não era um caminho direto.

J – Ele nunca disse nada que não fosse verdade, ele manteve a verdade num nível muito alto como um valor muito importante e se você olhar aquele período, havia um grande movimento com muita gente e muita energia trabalhando pra isso, mas você não pode negar que sua abordagem era sobre seguir os passos necessários para realmente conseguir alguma vitória e fazer progresso.

– Quero te perguntar outra coisa. Você esteve no James Corden recentemente e ele estava fazendo piadas sobre os bolsos do seu colete e você respondeu sobre uma guerra invisível, temos que estar preparados… há uma especulação sobre o que você estava falando.

J – Eu amo James Corden, e é um show de comédia que passa à noite… eu tenho recebido muito essa pergunta. Mais como uma piada. “Invisible war”, [risos].

Acho que é mais, acho que é uma batalha entre os que entendem que não temos mais uma democracia e entre os que tentam manter as coisas assim. E você sabe, muitas pessoas não estão cientes disso, mas no fundo, é o que está acontecendo.

P – É, muita gente não está ciente. Temos estudos extensos que encontraram que estamos numa oligarquia e que se os americanos querem algo que não se alinha com os interesses corporativos então não vão conseguir e as pequenas vitórias que as pessoas podem ter e dizer ‘conseguimos’, de alguma forma se alinham aos interesses corporativos. Queria te perguntar, você obviamente sabe que estamos falando de política, queria perguntar se você, quando você acordou, porque eu não era ativista ou político na faculdade, então depois comecei a ler Howard Zinn, John Perkins, Chris Hedges e todos os outros… você sempre foi político ou houve um momento… você disse mais cedo que talvez a segunda vitória de Bush teve impacto em você.

J – É, foi mais a segunda vitória de Bush, acho que o momento que trouxe certa urgência. Mas não, eu acho que sempre fui meio político, talvez não político, mas obcecado com, não sei o que você chamaria, realidade ou verdade ou …mesmo quando comecei a tocar música, acho que a música pra mim sempre foi um meio para um fim. Talvez soe brega, mas tentar fazer do mundo um lugar melhor. Então, acho que as pessoas que você mencionou, “Confissões de um assassino econômico”, é um livro fascinante, sabe, obviamente Howard Zinn e também Oliver Stone, meio que uma história mais recente, acho que é incrível “A história não contada dos EUA”. Mas como disse, Martin Luther King é provavelmente o que me atingiu mais, sabe, com soluções orientadas…

P – Considerando como as coisas estão terríveis agora no país e no mundo e o meio ambiente, tecnologia e vigilância, você poderia pensar que agora seria a era de ouro para música política, mas … eu não estou muito nisso como você, mas não parece como se houvesse muito, sabe. Então eu meio que queria colocar você nisso, porque não estamos ouvindo mais? E numa pergunta separada mas relacionada, você acha que a cultura ajuda a música ou a música define a cultura?

J – Acho que o entendo o que você quer dizer. Acho que a arte é e sempre foi um reflexo da vida da sociedade e eu acho que o reflexo que você fala é basicamente que mais pessoas não entendem claramente o que está acontecendo de maneira simples. Entendem coisas diferentes que eles vêem que está errado, mas não há esse simplicidade de fundo, como nos anos 60, por exemplo, com a guerra do Vietnã, uma guerra de conquista. Eles falam sobre comunismo, mas estavam tentando… Estavam tentando emular a América do começo. Acho que você vê o Vietnã, não é só o Vietnã, mas também há um projeto mandatório…sabe, há uma segregação, pessoas negras que não poderiam votar, esse tipo de questão clara e pelo que entendo, a educação era mais forte e as pessoas estavam mais informadas em certo sentido. Você não poderia ignorar o que estava acontecendo nos anos 60 e é diferente agora. Historicamente, acho que no final dos anos 80, a música de protesto que evoluiu eu diria que é mais o rap, que pegou o manto e acho que mesmo agora, pessoas como Tupac, claro, mas também um tipo de movimento punk. Se você quer que seja o próximo nível, nível Noam Chomsky, é mais o punk hardcore. Acho que esse tipo de música está mais sabe, bem informado, de tudo e não é mainstream.

P – Não é mainstream, é a música mais marginalizada. Existe, mas não está geralmente no rádio ou não chega ao mainstream. Você acha que é porque a maioria das emissoras são corporações agora?

J – Não acho que está conectado dessa forma. Acho que você não vê porque, é como eu disse, reflete a sociedade, as pessoas que estão informadas são um percentual pequeno. É como, arte é como um lugar onde você pode saber a verdade sem filtro, acho que mesmo pessoas como Bill Maher e John Oliver de quem eu sou fã, acho que no fim são comediantes de outro nível e sabe, realmente engraçados e incríveis em seus shows e entendo que eles estejam se preparando para ter mais acessos, mas muito disso sob o prisma da mídia corporativa. Sabe, pra mim, você já começa o argumento em um lugar que não é real e acho que, então as corporações não precisam barrar as músicas políticas, elas não existem realmente. Eles já fizeram o trabalho escondendo as lutas reais então, sim, a arte não está, já está tão do lado de fora que não precisam fazer nada específico pra isso.

P – Estamos ficando sem tempo. O que você sente que é o principal problema nos encarando agora?

J – Você pode dizer e, primeiro de tudo, quero dizer que sou pro companhias, pro capitalismo. Pra mim não é que o setor privado esteja louco, se você vive numa democracia então as pessoas, suas vozes deveriam ser mais fortes que a voz das companhias. Acho que elas se tornaram mais claramente poderosas que os governos democráticos e de certa forma sempre tivemos isso na história humana, então… o que é um pouco frustrante nessa época e acho que a mídia corporativa tem uma parte grande nessa operação. Sabe, eles conectam todas as pessoas doando pra campanhas e é tudo,você sabe, tudo investido de interesses financeiros e acho que assumir que não vai afetar a agenda das pessoas… é a razão da Redacted Tonight você sabe, operar quase como um tipo de, o maior tipo de mídia independente de notícias que você pode ter fora da TV ainda que obviamente, a agenda russa ainda … Você ainda tem que olhar… do ponto de vista do inimigo do seu inimigo é seu aliado e acho que você sabe se o inimigo é uma corporação predatória o que quer que queira chamar, eu honestamente acho que… você sabe direita, esquerda, eu respeito pontos de vista conservadores e obviamente…

P – Eu ouço o que você está dizendo e eu tenho minha própria agenda, então eu não estou seguindo a agenda de ninguém, mas entendo o seu ponto, isso é um dos únicos lugares em que não estou como você disse, ligado a uma corporação e não falo sobre Wall Street ou sobre guerras ou isso…

J – Sim, quero dizer, você sabe que entendemos as agendas, mas o que acho que o futuro das notícias poderia ser, você seguindo sua agenda e então você pode dizer suas coisas e a mídia colocar um rótulo ou algo nisso, mas pra mim o único lugar na América onde intelectuais que eu respeito podem falar e não serem  colocados numa lista negra é Redacted Tonight, quer dizer, se você acha que pessoas como Bernie ou, mais cedo falamos sobre eles no Redacted Tonight e você pode argumentar que é porque estão tentando bagunçar a América. Eles estão dizendo coisas que são verdade e as pessoas acreditam e ninguém quer ouvir alguém como Jesse Ventura que eu amo sabe, Chris Hedges ou Chomsky não serão entrevistados em nenhum outro canal, então…

P – Falamos de muitos problemas acontecendo no mundo. O que te dá esperança, sabe, é uma pergunta fácil, o que te dá esperança?

J – Acho que honestamente, estive pensando recentemente e, sabe, a forma que o capitalismo evoluiu pra essa super besta e acho que seria sombrio e sem esperança sem a internet. Mas temos internet e ainda tenho fé, sabe, de que as ideias e a informação são transmitidas depressa e acho que me dá muita esperança que as ideias certas circulem eventualmente. Se vai ser rápido num dia ou se precisa do tipo energia jovem entre as gerações pra sabe ganhar o mundo…

P – Temos que manter o campo, manter a revolução da informação em curso. Bem, vejo você em uma semana em Houston, estarei abrindo pra vocês estou ansioso. Obrigado de novo Julian.

J – Obrigado, muito obrigado.

Tradução: Entrevista com Cody Smyth

Cody Smyth, fotógrafo e amigo de longa data dos Strokes, está prestes a lançar o livro que documenta uma década da história da banda. Com data de lançamento prevista para 10 de outubro, o livro – que promete ser incrível – está em pré-venda na Amazon. Abaixo, a tradução de uma entrevista que o fotógrafo concedeu a Alejandra Ramirez em 10 de maio de 2016, em que ele conta de sua amizade com a banda e de como foi estar lá acompanhando o começo da carreira. Confiram!

 

 

The Strokes, Nova Iorque, e o fotógrafo que estava lá

Cody Smyth assistiu à transição de frequentadores de bares para uma das maiores bandas de rock do mundo

Como The Strokes chegou tão longe? Pense em 2001, quando os roqueiros de Nova Iorque lançaram seu álbum de estreia, Is This It. Aquele título, modesto e autocrítico, não combinava exatamente com o perfil de uma banda marcada para a onipresença e longevidade. Um sinal ainda maior da iminente morte da banda era o fato de críticos terem atribuído a eles expectativas messiânicas, saudando-os como a segunda vinda de The Velvet Underground (as raízes post-punk e produção sem frescura de Is This It também tornaram inescapáveis as comparações a Television ou Stooges).

Mas os verdadeiros Strokes eram algo mais simples que tudo isso: uma grande banda de rock. No início dos anos 2000 eles ajudaram Nova Iorque a ser excitante de novo e todos esqueceram o adágio solene “o rock está morto”, mesmo que por um momento. 15 anos e 4 discos depois, a influência da banda é clara, facilmente reconhecível nas marcas deixadas pelas execuções de Julian Casablancas ou pelas distorções irregulares da guitarra de Albert Hammond Jr.

Parece que Strokes dispararam para o estrelato em questão de segundos, mas sua fama não veio da noite para o dia. Pergunte ao velho amigo e fotógrafo da banda, Cody Smyth, que começou a reunir a história deles no final dos anos 1990. Smyth ficou com o grupo enquanto eles transitaram de regulares frequentadores de bar em jaquetas de couro para atração principal de festivais, tirando quantas fotos podia pelo caminho. No ano que vem, ele vai lançar um livro de fotografias talvez intitulado The Strokes 1996-2016, que ele descreve como “um registro de 20 anos de amigos próximos que se tornaram uma das maiores bandas de rock do mundo”.

Consequence of Sound falou recentemente com Smyth sobre seus planos para o livro, suas lembranças com a banda, e o que ele vê para o futuro dos Strokes. Com música nova a caminho e confirmados para o Governors Ball Music Festival neste verão, esse futuro pode ser tão fotogênico quanto o passado.

Então, qual a história por trás do livro que você vai lançar?

Eu conheci Nick, Julian, Fab e Nikolai em 1995, na escola. Nos tornamos amigos instantaneamente. Então começou lá atrás comigo fotografando amigos porque meus pais cresceram nessa indústria. Começou lá e cresceu para um documento inteiro.

Um amigo próximo da família que é editor da Lesser Gods sabia que eu os tinha fotografado. Ele trabalhou para a MTV Books, e eu acho que ele sabia que eu tinha esse registro que não foi visto… que eu tinha mais ou menos mantido para mim por quase 20 anos. Então eu o encontrei, e ele olhou algumas das fotos e pensou que era definitivamente suficiente para contar uma história de dentro – não só pra lucrar com ela. É tipo um registro íntimo de 20 anos viajando com eles, mas o livro surgiu porque ele se interessou e viu outras fotos além das que estão em meu site.

Desde então, eu procurei os caras, e eles sabem sobre meu trabalho e sempre apoiaram. Eles foram super legais a respeito e realmente estão animados e felizes com isso. (mais…)

Tradução: Entrevista com Nick Valensi

 

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Foto por Amanda de Cadenet

 

Em 2006, Nick Valensi concedeu uma entrevista por telefone a Daniel Robert Epstein, do site SuicideGirls, uma página dedicada a publicar material e fotos eróticas de garotas estilo pin up.  A seguir, nossa tradução:

Daniel Robert Epstein: Hey, Nick, onde você está hoje?

Nick Valensi: Estou no Brooklyn, Nova Iorque. Onde você está?

Daniel: Astoria, Nova Iorque. Somos rivais.

Nick: Sim, somos rivais, mas também estamos intimamente ligados.

Daniel: Então, você estará no Saturday Night Live amanhã à noite.

Nick: Sim, estaremos no SNL. Tivemos uma agenda agitada nos últimos dois ou três meses.

Daniel: Vocês vão participar de algum dos esquetes do SNL?

Nick: Acho que não. Eles não nos pediram [risos]. Mas no ensaio de ontem, filmamos umas duas chamadas para comerciais.

Daniel: Eu vi, são realmente engraçados. Aquele personagem de Horatio Sanz’s é realmente perturbador.

Nick: Sim, cara, é pior ao vivo. Mas estivemos realmente ocupados e eu sinto como se não tivesse tempo suficiente no dia. Você conhece a sensação?

Daniel: Eu tive isso hoje.

Nick: Me parece que falei com umas duas pessoas hoje que tiveram dias agitados. Talvez seja o ciclo astrológico mesmo que eu não acredite realmente nessas coisas.

Daniel: Acho que é o aquecimento global.

Nick: Ok, culpe-o por isso. Então, suicidegirls.com, é um site pornô, né? (mais…)

Entrevista – Um americano em Paris: Fabrizio Moretti

 

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Dia 10 de julho, foi publicada aqui no Elledérive uma entrevista com Fabrizio Moretti, sobre seu tempo em Paris. Leia nossa tradução logo a seguir:

Você vive em Paris já faz um ano. Quando descobriu a cidade pela primeira vez?

Eu vim com minha família quando era pequeno, mas ainda tenho algumas lembranças daquela visita. Para mim, era só mais uma grande cidade, ou uma outra viagem em família. Por outro lado, eu lembro perfeitamente quando vim em 2002 com os Strokes. Nossa banda estava começando, e ficamos em um hotel perto do Gare Du Nord. Eu andei bastante pela cidade e pensei “Tem uma energia forte nessa cidade, um dia vou morar aqui”.

Por que decidiu se mudar pra cá?

Eu precisava de um tempo pra pensar sobre o que iria fazer da minha vida. A banda estava em uma espécie de ‘hiato’, e eu me senti meio preso na rotina em Nova Iorque. Eu estava só vendo as pessoas que saíam e viviam uma vida de excessos e estava cansado disso. Mas eu não sabia onde ir! Então eu lembrei do que senti naquele pequeno hotel perto da Gare Du Nord, e lembrei da promessa que fiz a mim mesmo.

Primeiro, eu estava tão perdido quando cheguei! Eu pensei: “F*, o que estou fazendo aqui?” (risos). Mas então conheci Liz, um ilustrador que estava apaixonado por música, e nós começamos a trabalhar juntos em um projeto artístico que chamamos FUZLAB, um afresco de alguns metros, evocando o mito de Teseu e o Minotauro. Este trabalho me permitiu muitas coisas: primeiro, me deu um objetivo, então Luz e eu construímos uma amizade sólida, e finalmente, me deu um novo olhar sobre criação, e mudou minha forma de fazer música.

Como assim?

Eu me tornei mais disciplinado na bateria. O trabalho de um ilustrador requer flexibilidade nas mãos, e o de um baterista também, e eu trabalhei nessa flexibilidade. Além disso, quando você desenha, você não sabe realmente onde está indo, mas você tem que dizer a si mesmo que está indo em direção a algo lindo. Eu aprendi a aplicar a mesma abordagem de confiar no improviso na música.

Paris é uma cidade inspiradora, para um artista?

Sim, definitivamente. Os museus são tão ricos, e a arquitetura é incrivelmente bem preservada também. Você pode sentir que está em um lugar atemporal. Essa atemporalidade encoraja você a pensar que o que você cria também é atemporal. Não me entenda errado, não significa que eu crio coisas incríveis. Mas aqui, eu sinto que posso ir mais longe ao explorar minha criatividade. Eu posso ir em direção à fantasia. Sabia que William S. Burroughs escreveu Naked Lunch em Paris? Ele costumava passer um bocado de tempo na Shakespeare and Co.

Quais seus outros locais usuais?

Eu moro no 3º arrondissement*, e saio pela vizinhança. Vou tomar café no Fragments. Eles fazem um café ótimo. No almoço, às vezes vou ao Merci. Sim, é um pouco esnobe, mas as pessoas que gerenciam o local são muito doces. E pra jantar, eu amo o Nanashi, é tão bom!

Outra coisa que adoro fazer em Paris é visitar os museus à noite. O Louvre, Orsay ou Pompidou: é fabuloso ir lá quando a noite cai e está tão calmo, sereno.

O que você acha da imagem veiculada pela mídia internacional da mulher parisiense – livre, sofisticada, chique e boêmia ao mesmo tempo?

É uma pergunta difícil pra mim, porque quando eu ando por aí ou conheço as pessoas, não importa pra mim se são homens ou mulheres. Mas – e talvez isso se deva ao fato de não ser bilíngue e não compreender completamente o que as pessoas estão dizendo – eu tenho a impressão de que as pessoas aqui são mais mente aberta, mais tolerantes à excentricidade.

Mais que em Nova Iorque?

Sim, absolutamente.

Falando em excentricidade, qual a coisa mais maluca que você vivenciou em Paris?

Eu estava com Luz. Depois de abrir a exibição FUZLAB, fomos convidados à casa de alguém que não conhecemos, o filho de um alto funcionário libanês, alguém rico. Era em um apartamento luxuoso em Île St Louis. Não sei porque, mas Luz estava vestido de branco aquela noite. Depois de algumas bebidas (era quando eu ainda bebia, isso está no passado agora), começamos a fazer bagunça. Tinha uma grande tigela de melado, e começamos a usar pra pintar as roupas brancas de Luz, enquanto dançávamos. O filho do oficial libanês achou impressionante, e estava gritando: “estamos festejando no inferno!” (risos). Estávamos bem limpos e arrumados quando fomos à festa, mas quando saímos estávamos cobertos de melado, no meio da noite, no coração da Île St Louis. Foi um absurdo total, mas uma grande lembrança de riso histérico.

*arrondissement: divisões administrativas da cidade de Paris.

Fonte: Elledérive Paris

Tradução: Equipe TSBR

Tradução – Talvez você não viva só uma vez: O novo vácuo de Julian Casablancas

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Foto por Abby Ross

Na edição de abril de 2015 da Noisey foi publicada uma matéria sobre Julian Casablancas, na qual o artista fala de música, política e suas aspirações. Vejam a seguir a nossa tradução:

Depois de meses tentando desembrulhar o cérebro do líder dos Strokes, ainda não temos certeza do que descobrimos. No fim, esse deve ter sido o plano o tempo inteiro.

O sol começa a tocar as árvores e desaparecer de vista enquanto Julian Casablancas e eu sentamos olhando um lago na área rural de Nova Iorque. É um dia fresco e claro de outubro, e ele está brincando com a ideia de dirigir até a cidade. Ariel Pink tem um show no Brooklyn. Não é um pouco tarde para entrar na lista? “Meu rosto é meu passe para o backstage,” ele ironiza, completando rapidamente, “Courtney Love me disse isso um tempo atrás. Ela e Winona Ryder estavam dirigindo depois de um show e Courtney gritou, ‘Venha ser famoso conosco!’”

O líder dos Strokes não é famoso de muitos flashs, mas ele é reverenciado em uma espécie de culto, especialmente no cenário musical de Nova Iorque. Ele é o tipo de cara que você nota, mesmo que não tenha certeza do motivo. Hoje sua figura de 1,88m está vestida em calças jeans brancas sujas e uma camisa vermelha de flanela que aparece pouco por dentro da velha e lustrosa jaqueta preta dos Knicks, que ele viria a vestir cada vez que nossos caminhos se cruzaram poucos meses à frente. No terreno cercado de cidade perfeita onde nos encontramos mais cedo aquele dia, ele estava genuinamente incongruente, dirigindo um Monte Carlo SS da Chevrolet dos anos 80 que ele comprou no Craigslist. Todo preto com detalhes vermelhos e um interior amarronzado, ele abraça a estrada lentamente e o motor emite um profundo ruído agradável. O cantor de 36 anos cruza o estacionamento da linha do trem e para. Ele sai do carro, sorrindo, e abre a porta do passageiro. Depois, quando estacionamos em um café-restaurante tão singular que parece uma ilustração, um homem de meia idade passa por perto com sua esposa e balança a cabeça, apreciativo: “Esse é um carro clássico. Essa coisa é maravilhosa!”

Estou encontrando Casablancas para conversar sobre seu disco Tyranny. É seu segundo disco fora dos Strokes – depois de Phrazes for the Young de 2009 –, mas seu primeiro com uma nova gangue vestida em couro, The Voidz. Sugerido por ele, nos encontramos a poucos passos do local para onde ele, sua esposa e filhinho recentemente se mudaram, é assim que nos encontramos caminhando por uma estradinha meio escondida, pisando em folhas secas até um lago bem próximo. Sentamos em nossos casacos perto da água. Álcool, cigarros, maconha e café são todos vícios do passado. Red Bull tipicamente ajuda Casablancas a se tornar mais comunicativo e atingir o requisito necessário para uma entrevista, mas não há nenhum Red Bull por perto. Hoje, ele bebe água vitaminada. É roxa.

A primeira vez que conheci The Strokes foi dia 1º de fevereiro de 2001, em Brighton, Inglaterra. Era seu primeiro show principal no Reino Unido, e eles haviam lançado o EP The Modern Age poucos dias antes. Mesmo sendo de Nova Iorque, eles foram maiores primeiro no Reino Unido, onde o burburinho tinha uma ordem de magnitude mais alta de que qualquer outro artista da época. Caminhei por aquela casa de shows suja enquanto uma passagem de som ecoava, uma estudante de jornalismo com algumas entrevistas a tiracolo. Eu usava calças jeans desbotadas porque era o que todo mundo usava na época, e J.Lo, Limp Bizkit, Eminem, Britney e Christina estavam em rotação permanente na MTV. Eu conduzi uma entrevista terrível. Os Strokes eram amáveis e ansiosos para falar; alguns deles eram oblíquos (Valensi), outros estupefatos e levemente impacientes (Casablancas). Em algum momento perguntei, “Então, Britney ou Christina?” (mais…)

Tradução: Gordon Raphael conta algumas histórias de The Strokes para NME

Gordon Raphael NME jan2015

 

“Histórias sobre os Strokes? Eu tenho um bocado delas…”

Por Jamie Fullerton
Tradução Equipe TSBR

Você provavelmente conhece Gordon Raphael como o rosto que não pertence a um dos integrantes de The Strokes – mas ganhou o mesmo destaque que eles – no encarte do seu clássico álbum de estreia de 2001, “Is This It”.

Gordon produziu esse disco em seu estúdio de porão em Manhattan, assim como o seguinte “Room on Fire” de 2003, capturando o som da banda como só ele soube. Ele foi substituído para o terceiro disco da banda “First Impressions of Earth” por David Kahne, produtor de Paul McCartney, e vive em Berlim desde 2005.

Agora ele está prestes a vir ao Reino Unido para uma série de shows no estilo pergunta e resposta. Felizmente, ele está disposto a aceitar que irá passar a maior parte do tempo respondendo um bocado de perguntas sobre como era estar no circulo de convivência de Julian Casablancas e sua gangue. “Bem, eu realmente tenho um monte de histórias sobre o tempo que passei com esses caras,” ele diz.

Alguns dos ganchos serão doces e positivos. “Eu lembro quando passeava por East Village e encontrei Albert Hammond Jr em seu pequeno terno e uma caixa embaixo do braço,” Raphael relembra. “Ele estava tipo, ‘Ei Gordon, olhe a capa!’ Era a capa do The Modern Age EP, que eu tinha acabado de produzir para eles. Ele ia para cima e para baixo em lojas de discos em St. Mark’s Place perguntando se ficariam com algumas cópias para colocar à venda.”

Algumas lembranças não são tão agradáveis, como da vez em que Julian lhe atormentou sobre não ter assinado um contrato adequado para produzir The Modern Age EP depois que ele transformou The Strokes na nova banda mais empolgante do mundo. “Ele veio até mim – eu podia sentir o cheiro de álcool – e ele me abraçou,”diz Gordon. “Então ele me olhou e disse ‘Você não gostaria que tivéssemos feito um contrato? Você está recebendo nada desses discos que estamos vendendo’ Eu disse, ‘seu babaca!’”

Gordon não trabalha com uma banda do nível dos Strokes desde então, mas ele esteve muito perto de produzir o disco de estreia de The Libertines. A banda implorou para que ele aceitasse, mas a gravadora deles, Rough Trade, vetou a opção. “Eu estava em uma festa pós show dos Strokes em Londres, muito chapado,” ele conta sobre a primeira vez que conheceu Pete e Carl. “Pete tinha 19 anos, usava um chapéu e um velho terno inglês, ficou de joelhos, deslizou seu chapéu pelo braço até a mão e cantou para mim uma velha música inglesa. Aquilo derreteu meu coração!”

O segredo dele para continuar cativando conversas, além de relembrar tóxicos encontros com lendas do indie rock? Como sua técnica de gravação com os Strokes, é simples e efetivo: “Eu visto roupas legais, subo no palco então apenas peço para que as pessoas façam perguntas!”

Tradução – Entrevista de Julian Casablancas + The Voidz para GQ Magazine

Julian Casablancas está farto de tentar te salvar

Há uma década, como líder dos Strokes, ele era o messias de Nova York que deveria salvar o rock ‘n’ roll. Até que no fim das contas ele precisou de salvação. Agora ele saiu da cidade, (meio que) mudou de banda, e criou um novo (pesado!) som. Bem vindo de volta, Julian

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por Zach Baron

Por um momento, Julian estava perfeitamente ciente do motivo porque deixou Nova Iorque, sua casa durante a infância e o lugar onde sua banda, The Strokes, que antes era sinônimo de tudo de cru e sedutor sobre a cidade, primeiramente deu as caras. “Eu ando por Nova York agora e fico chateado,” ele tinha dito. Muitos bares de suco, basicamente. Poucos caras genuinamente cool como, bem – Julian Casablancas. Mas um dia depois ele parece se arrepender até mesmo dessa pequena frase dita. “Eu não diria que a razão é que eu ando por lá e odeie todo mundo que mora lá. Isso seria rude.” Com relutância ele me disse o nome da cidade ao norte para onde ele se mudou com sua mulher e filho. Agora ele parece reconsiderar essa informação também. “Você se importa se eu apenas disser que é ao ‘norte’, só por…”

Se você não odeia todo mundo em Nova York, o que fez você sair de lá?

“Hm, nós apenas encontramos um lugar legal que gostamos, que quisemos ir, e também… eu não sei… desculpa…”

É assim que ele fala. Como se estivesse constantemente pensando o que Julian Casablancas – quem quer que ele seja – diria, ou deveria dizer. Do outro lado da mesa, entre a escuridão do restaurante mexicano onde estamos sentados em algum lugar de Los Angeles, onde ele vem ensaiar com a sua nova banda, ele já parece estar sofrendo. Estamos aqui há onze minutos.

“De repente não estou fazendo isso muito bem, saindo dos trilhos, confuso entre o que é privado e o que não é…”

Ele parece ter um pouco mais de cabelo do lado direito da cabeça de que no esquerdo – é desigual e longo e angelical daquele modo esfarrapado familiar que está se tornando cada vez mais assustador enquanto ele envelhece. Ele decidiu não dizer muito sobre si mesmo – ele nunca realmente disse muito sobre si mesmo; ele balbucia coisas, é desajeitado, algumas vezes conflituoso – mas ele continua deslizando.

(mais…)