Tradução: Entrevista com Cody Smyth

julho 30, 2017 1:36 pm Publicado por Deixe um comentário

Cody Smyth, fotógrafo e amigo de longa data dos Strokes, está prestes a lançar o livro que documenta uma década da história da banda. Com data de lançamento prevista para 10 de outubro, o livro – que promete ser incrível – está em pré-venda na Amazon. Abaixo, a tradução de uma entrevista que o fotógrafo concedeu a Alejandra Ramirez em 10 de maio de 2016, em que ele conta de sua amizade com a banda e de como foi estar lá acompanhando o começo da carreira. Confiram!

 

 

The Strokes, Nova Iorque, e o fotógrafo que estava lá

Cody Smyth assistiu à transição de frequentadores de bares para uma das maiores bandas de rock do mundo

Como The Strokes chegou tão longe? Pense em 2001, quando os roqueiros de Nova Iorque lançaram seu álbum de estreia, Is This It. Aquele título, modesto e autocrítico, não combinava exatamente com o perfil de uma banda marcada para a onipresença e longevidade. Um sinal ainda maior da iminente morte da banda era o fato de críticos terem atribuído a eles expectativas messiânicas, saudando-os como a segunda vinda de The Velvet Underground (as raízes post-punk e produção sem frescura de Is This It também tornaram inescapáveis as comparações a Television ou Stooges).

Mas os verdadeiros Strokes eram algo mais simples que tudo isso: uma grande banda de rock. No início dos anos 2000 eles ajudaram Nova Iorque a ser excitante de novo e todos esqueceram o adágio solene “o rock está morto”, mesmo que por um momento. 15 anos e 4 discos depois, a influência da banda é clara, facilmente reconhecível nas marcas deixadas pelas execuções de Julian Casablancas ou pelas distorções irregulares da guitarra de Albert Hammond Jr.

Parece que Strokes dispararam para o estrelato em questão de segundos, mas sua fama não veio da noite para o dia. Pergunte ao velho amigo e fotógrafo da banda, Cody Smyth, que começou a reunir a história deles no final dos anos 1990. Smyth ficou com o grupo enquanto eles transitaram de regulares frequentadores de bar em jaquetas de couro para atração principal de festivais, tirando quantas fotos podia pelo caminho. No ano que vem, ele vai lançar um livro de fotografias talvez intitulado The Strokes 1996-2016, que ele descreve como “um registro de 20 anos de amigos próximos que se tornaram uma das maiores bandas de rock do mundo”.

Consequence of Sound falou recentemente com Smyth sobre seus planos para o livro, suas lembranças com a banda, e o que ele vê para o futuro dos Strokes. Com música nova a caminho e confirmados para o Governors Ball Music Festival neste verão, esse futuro pode ser tão fotogênico quanto o passado.

Então, qual a história por trás do livro que você vai lançar?

Eu conheci Nick, Julian, Fab e Nikolai em 1995, na escola. Nos tornamos amigos instantaneamente. Então começou lá atrás comigo fotografando amigos porque meus pais cresceram nessa indústria. Começou lá e cresceu para um documento inteiro.

Um amigo próximo da família que é editor da Lesser Gods sabia que eu os tinha fotografado. Ele trabalhou para a MTV Books, e eu acho que ele sabia que eu tinha esse registro que não foi visto… que eu tinha mais ou menos mantido para mim por quase 20 anos. Então eu o encontrei, e ele olhou algumas das fotos e pensou que era definitivamente suficiente para contar uma história de dentro – não só pra lucrar com ela. É tipo um registro íntimo de 20 anos viajando com eles, mas o livro surgiu porque ele se interessou e viu outras fotos além das que estão em meu site.

Desde então, eu procurei os caras, e eles sabem sobre meu trabalho e sempre apoiaram. Eles foram super legais a respeito e realmente estão animados e felizes com isso.

Isso parece muito diferente da maioria dos livros de fotos sobre bandas. Muitos só mostram os músicos no auge da fama, ao contrário de tentar registrar suas carreiras.

É algo que eu tentei involuntariamente capturar com meu trabalho. Nós na escola, rodando pelo Central Park ou à toa tarde da noite fazendo o que não deveríamos fazer. Eu sabia que eles iriam fazer algo, mesmo no começo ou quando estavam tocando em bares em Nova Iorque tipo Baby Jupiter ou Arlene’s Grocery. Eu só queria continuar registrando e aproveitando enquanto estava acontecendo.

Eu não queria que as fotos parecessem com intenção de serem vistas ou publicadas. [elas são] uma forma de documentar uma amizade de uma perspectiva interna e externa – estando com eles, sendo amigo deles, vendo como as músicas progrediram e sabendo como eles pensam.

Alguma ideia para o título do livro?

Não tenho certeza ainda. Estou tentando ficar longe das letras das músicas deles. Houve um título que pensei que seria um extra do primeiro disco, Is This It. Quero que seja direto e bonito. Não quero que seja brega.

Você falou sobre ter conhecido Nick, Fab e Julian na escola. Como sua amizade começou?

Bem, assim que conheci Nick e Julian no inverno de 1995, nos tornamos meio inseparáveis. Durante a escola, depois da escola, nos finais de semana, andávamos juntos e fazíamos o que adolescentes de Nova Iorque faziam naqueles dias. Estávamos sempre em bicicletas e indo à casa de alguém. Central Park era basicamente nosso quintal, então passávamos muito tempo no parque. Naqueles dias, quase todos que conhecíamos apareciam num lugar chamado Meadow no parque. Íamos assistir shows de música no Roseland ou CBGB, também.

Ríamos muito, fizemos algumas coisas ilegais, entramos em algumas encrencas, e sempre queríamos estar juntos. Outra lembrança ótima que temos é de passar finais de semana prolongados na casa de praia da família de um amigo próximo. Ficava a uma hora de trem desse lugar em Long Island. Fazíamos o que adolescentes faziam sem supervisão dos pais nesses fins de semana. Mas podíamos cozinhar, jogar basquete, andar de bicicleta, ir à praia, e vagar pelo lugar. Era um ótimo escape da cidade de vez em quando. Em todos esses momentos, uma guitarra estava lá, e Nick ou Julian ou mesmo eu estaríamos tocando. Sempre tinha música tocando. Música era um grande conector pra nós.

Eles parecem ser grandes apoiadores seus, mas houve momentos em que você sentiu que a dinâmica começou a mudar enquanto a banda crescia?

Sim, eles sempre me apoiaram. Nunca houve momentos deles me dizerem para sair nem nada disso. Uma vez ou outra, Julian me diria para recuar durante uma passagem de som, mas era no começo, e por causa disso eu acabei conseguindo essa ótima foto de um salão vazio em que eles tocaram. Então, a partir daquele momento que ele disse “Saia da minha cara, não agora” , isso me permitiu entender que ele estava trabalhando. Eu não queria interferir, então isso me forçou a pegar outro ângulo. Todos eles são realmente apoiadores, especialmente Nick. Ele é como um irmão. Eles são todos artistas, também, então eles entendem.

Mas voltando à sua pergunta, eu notei que a dinâmica começaria a mudar. Sairia em turnê com eles pela Costa Leste, e outros fotógrafos viriam junto, que eram seus amigos e conhecidos, e em alguns momentos, as coisas ficariam pesadas. Mas os aspectos mudaram principalmente em relação a [gestão da banda] e a política de tudo. Meu amigo Nick sempre me deu boas-vindas tipo “temos um lugar pra você no ônibus, cara, não se preocupe” ou “apenas venha, será divertido”. Chegando lá, era como estar em família.

Vi merdas, mas isso aconteceria. Ser amigo de alguém por 20 anos vem com a possibilidade de dar nos nervos um do outro de vez em quando. Sempre tinha um passe ou crachá. Mesmo quando eles se tornaram maiores e passaram a ter seguranças – como esse cara, Rob, que eu devo ter fotografado – todo mundo sabia que eu não era um penetra. Mesmo outros agentes ou pessoas que vieram sabiam que eu não tinha más intenções ou estava fazendo apenas fotos caça-níquel para vender para a mídia.

Houve algum momento em que você pensou “Ok, essa banda tem potencial?”

Não houve um momento específico nem nada, mas eu lembro dessa circunstância em 1999 quando eles estavam tocando em locais menores em Nova Iorque. Não tinha muitos fãs. Quando Albert chegou em 1998 ou 1999, eu lembro de pensar “Ok, isso vai ser algo raro e coeso e estimulante que Nova Iorque não sente há um longo tempo”. Eu tenho só 38, mas o início dos anos 2000 foram realmente grandes para a música em Nova Iorque.

Tem um momento que eu sempre revisito. Foi um show, provavelmente em agosto de 2000 ou 2001 no Mercury Lounge. Não tinha ar condicionado, e estava horrivelmente quente. Estavam espalhando West Nile spray em toda Nova Iorque, nas ruas e grandes avenidas, então desligaram o ar condicionado. Tinha uma multidão se juntando porque havia um par de outras bandas – acho que Yeah Yeah Yeahs estavam começando. Haviam muitos amigos, e naquele show eu lembro de nós meio que sentimos que estava começando. Eu não sei se foi a sensação ou o verão, mas foi aquele show. Você podia sentir e todos os amigos podiam sentir, e foi quando tudo meio que decolou.

Quais são algumas de suas fotos favoritas que serão incluídas no livro?

Uma das minhas favoritas é essa foto em que estão todos alinhados na 8ª Avenida. Havia um local para ensaio na 8ª Avenida e eles estavam indo a Filadélfia aquela noite e eu disse a eles “Me deixem fazer uma foto de grupo, eu não fiz uma ainda”, então nos encontramos. É uma das minhas favoritas por causa da noite que se seguiu. Acabei indo com eles a Filadélfia e os irmãos Oasis apareceram nesse clube pequeno e ficaram a noite toda.

 

Algumas outras que eu tirei de Albert no banheiro da Radio City Music Hall… essas sempre ficam comigo porque eles iam tocar com The White Stripes, e todo mundo estava empolgado e era uma fase que eu queria fotos individuais deles em qualquer lugar, sempre que pudesse. Albert foi o primeiro, e eu lembro de alguém dizendo que os banheiros da Radio City eram imponentes, então eu o levei lá e fizemos algumas fotos.

The White Stripes e The Strokes? Imagino que tenha sido um show louco.

Foi! Estava realmente cheio e todo mundo estava estressado. Acho que foi 2002, mas lembro da sensação de grande energia, e um monte de gente animada que eles estavam tocando juntos. A banda estava super nervosa mas também legal sobre eu querer fazer fotos deles.

Eles estavam felizes por isso, e é esse tipo de aspecto que quero colocar no livro. Meu amigo Nick poderia facilmente ter dito “Olha, estamos estressados e é um pé-no-saco” mas ele não disse, o que foi ótimo. Enquanto eu tirava fotos, também era só um grande fã. Em alguns momentos nem saquei a câmera, estava apenas aproveitando.

Queria falar sobre umas fotos em particular. Há uma da banda no Lyric Diner. Eles parecem exaustos.

Foi noite de ano novo em 1999, e acho que era muito, muito tarde. Nem sei se estávamos fazendo algo louco aquela noite. Eles nem eram conhecidos ainda. Eles provavelmente parecem cansados porque estavam ensaiando muito mesmo e tocando bastante nos bares. Eu estava sempre buscando esse tipo de momento. Sempre pareceu linear pra mim, crescer em Nova Iorque olhando os prédios, trens e ruas. É como todos estão na foto. Estamos apenas andando por aí como amigos. Era como não saber o que viria a acontecer no futuro.

Também há algumas fotos engraçadas em que acho que Nikolai está segurando uma faca e Albert tomando uma cerveja. Eles parecem em seus próprios mundos.

Estavam todos no backstage. E Nick no piano, e eu honestamente não sei porquê Nikolai tem aquela faca na mão, mas lembro que ele a jogava na parece, acho. Lembro que estávamos em LA no Gibson Theatre, e Eagles of Death Metal iam abrir pra eles. Foi o tipo de show em que todos estavam em todo lugar… naquela foto, eles meio que agiam como eles mesmos por um momento.

Também há uma que é aquela foto “prestes a entrar no palco” que você sempre encontra em livros.

Acho que isso foi em San Diego. Eagles of Death Metal estava abrindo pra eles. Eu estava com Nick em LA e decidimos dirigir em vez de pegar o ônibus com os outros caras. Estava chovendo o caminho todo, e levou três horas. Tínhamos planejado chegar cedo, mas não aconteceu. Na hora que chegamos, Nick tinha que estar no palco em dez minutos.

Eu realmente não tinha tempo para fotografar, nada além de algumas fotos no palco. Então eu tirei uma deles indo do camarim para o palco. Mais uma vez anos depois, ainda tinha aquela câmera comigo.

A próxima foto é realmente granulada. Todos parecem estar assim, especialmente Albert, e o clube parece pequeno, também.

Esta foto foi tirada em 2000 num bar chamado Don Hill’s que está atualmente fechado. Íamos lá muito naquele ano, tanto quanto eles estavam tocando e possivelmente mais ainda quando não estavam. Alguns amigos fizeram uma festa lá chamada “TisWas”. Esses foram os primeiros dias, então era mais um show em que estavam basicamente amigos.

Ainda a tenho, mas estava usando uma pequena câmera de 35mm chamada YAshica T4. Grande pequena câmera! Muitas vezes quando só queria sair e não focar em fotografar muito, eu a levava comigo. A energia estava alta neste show, e foi ótimo assistir. Estava na frente tirando fotos, tomando uma cerveja, fumando um cigarro – nos tempos em que você podia fumar em bares. Processando o filme dias depois, estava mais do que feliz com o que consegui … Não estar preocupado acabou recompensando no fim. Tenho quase certeza de que foi uma daquelas noites que viramos, mas era bem comum naqueles dias.

Como estão todos hoje?

Todos meio que estão em seus próprios lugares. Tipo, eu fui a LA e passei bastante tempo com Nick e sua família. É bastante comum, só nos encontrar e fazer coisas normais, como ir a um jogo de beisebol ou assistir Jerry Seinfeld. Se não, vamos para a piscina e relaxamos. Nikolai é meio que um tipo família, mas eu o vejo muito porque sua filha vai à escola com meus irmãos menores, então eu o vejo sempre em West Village. Ou no playground ou na vizinhança. Albert e eu nos falamos por mensagem, também. eu diria que Julian é o mais recluso, mas quando nos encontramos, é como família.

O que você vê na trajetória da banda no futuro?

Eu os vejo fazendo música nos próximos anos e ainda fazendo turnês. Mesmo quando eles tiraram um tempo entre os discos para fazer outras coisas paralelas… eles sabem que é mágico quando estão juntos. E quanto não tocamos por 5 anos e somos atração principal num festival com grande público ainda aparecendo, isso significa algo. Eu os vejo no Rock and Roll Hall of Fame, com certeza.

Além de ser amigo e olhar para eles do ponto de vista de fã, vejo que eles são uma das bandas mais influentes dos últimos 15 anos. Como eu disse, eles e The White Stripes conseguiram inaugurar essa nova onda de rock and roll que estava faltando há muito tempo desde o início dos anos 90.

 

Entrevista original em: Consequence of Sound

Tradução: TSBR

Fotos: Cody Smyth

Tag: , , ,

Categorizados em: , , ,

Este artigo foi escrito porNice

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *