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Tradução — Entrevista com Julian Casablancas para Les Inrocks

3 anos atrás por Tata Categorias: , ,
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Fotografia: Liliane Callegari

Julian Casablancas, a entrevista: “Eu ainda estou com raiva”

por JD Beauvallet

À margem dos Strokes, Julian Casablancas encontrou uma gangue de durões tatuados para tocar juntos um rock físico. Punk, new-wave, hardcore: o americano revisita com voz perfeita as músicas agitadas de sua adolescência. Mas com a consciência política de um adulto.

Seu novo grupo, The Voidz, é uma forma de escapar da pressão dos Strokes, de reencontrar a leveza?

Não, o desafio é mais forte com The Voidz, me obriga a cavar mais fundo, a enfrentar as coisas que eu tendia a evitar. Esses últimos anos, com os Strokes, o que mais importava pra mim era que nos dávamos bem, estou aberto aos outros. Eu queria que em cada canção, estivéssemos felizes, positivos. No começo, eu sem dúvida me importava menos com os desejos e as reações de cada um. Foram necessários anos para não haver mais guerra nos Strokes. Então, hoje, estamos em paz, avançamos na mesma direção. Sem dúvida hoje será mais fácil apresentar minhas ideias malucas aos Strokes… por muito tempo, se eu chegasse falando: ‘vamos fazer uma introdução de mais de dois minutos’, eles me olhariam como um marciano (risos)…

Você se sente mais à vontade com The Voidz?

Mesmo estando à frente, não é preciso acreditar que The Voidz representa meu ego. É preciso usar a mesma força de convicção que com os Strokes pra mover os outros. Levei algum tempo para encontrar pessoas com quem estivesse exatamente no mesmo comprimento de onda, humanamente, musicalmente. Nos sentimos fortes como uma gangue com The Voidz… A primeira vez que cruzamos juntos Nova Iorque às três da manhã, nos olhávamos e pensávamos: ‘caramba, eu não passaria por esses caras à noite num beco’ (risos)… Nós cuidamos uns dos outros, somos irmãos.

Um dos aspectos estranhos de seu álbum Tyranny é a justaposição entre um som explosivo, bastante colérico e o canto cada vez mais melancólico, desiludido…

São sem dúvida os temas que pedem esse tom. Eu quero oferecer um pouco de esperança no fim, mas no caminho, vou forçosamente atravessar passagens esmagadoras. É o preço a pagar pelo realismo. Continuo com raiva, há sempre esse sentimento de desespero e fúria em mim. A diferença, é que hoje o sentimento é de jogar contra o relógio. Eu sei que vivemos totalmente em uma bolha, no castelo de Versailles (risos)… é preciso que vejamos as coisas com nossos próprios olhos para acreditar nelas: a menos que sejamos violentamente vítimas do sistema, nos acomodamos, nos fazemos de avestruz. Quando voltamos aos sistemas feudais tirânicos como da Idade Média… vivemos totalmente uma ilusão de democracia: quanto mais de nós reconheçamos o interior de nossa bolha, melhor será.

Você se sente mais exasperado/irritado com a idade?

Não me sinto nem político, nem radical. Mas muitos artistas são insensíveis à moralidade: é meu cavalo de batalha. Os anos Bush sem dúvida abriram meus olhos… O objetivo da música deveria ser de oferecer uma escapatória a essa realidade, eu sei bem. Mas tenho a sorte de ter um microfone, eu não posso tratar o que faço de forma leve. O verdadeiro desafio, é de ser universal, de poder ser compreendido por todos em todos os lugares. É por isso que frequentemente uso frases de duplo sentido, para que ninguém se sinta excluído. Mas em Tyranny, havia sem dúvida uma necessidade de ser mais preciso, porque o inimigo é muito mais visível a olho nu, os problemas aparecem mais claramente. Não era uma vontade: era a situação que, nos últimos anos, me levou a escrever essas músicas.

Você já pensou em escrever além de música, artigos, por exemplo?

Concordo, não acho que a música pop seja suficiente. É um veiculo para transmitir minhas pequenas reflexões ao grande público. Mesmo essa magra contribuição pode ajudar. Mas escrever artigos, não, muito trabalho pra mim (risos)… eu preciso da música pra escrever. Por exemplo, meu poeta preferido, Rumi, escrevia sobre a música – e eu nem me comparo, hein?

A música de Tyranny – punk, new-wave, hardcore – é pra você tingida de nostalgia?

Sempre gostei da intensidade das músicas hostis, agressivas. Mas também amo as coisas muito pop, e poucos grupos tiveram sucesso, como Nirvana, em reunir os dois. Minha prática de música vai nesse sentido, eu não ouço necessariamente os discos, mas um clássico praiano, um pouco de hip-hop, depois outro country alternativo totalmente louco…

De fora, temos a impressão que sua participação em Random Access Memories de Daft Punk revolucionou sua maneira de cantar. A experiência foi tão forte?

Eu os adoro, estou orgulhoso de ter sido convidado, eu cheguei a ganhar uma pequena estatueta do Grammy graças a eles. A canção Veridis Quo é sem dúvida uma das minhas favoritas de todos os tempos. Muito se fala de suas bases funky, que também amo, mas o que me toca mais é seu lado barroco. Sua maneira de misturar o clássico e o sintetizador é realmente mágica. Quando ouvi a canção que me propuseram, Instant Crush, imediatamente pensei em Veridis Quo, em sua simplicidade. E minha primeira reação foi dizer: ‘deixe instrumental, não a estrague com a minha voz!’ Trabalhar com eles nos obriga nos superar. Talvez eles quisessem que eu cantasse como Strokes, com aquele canto grave como Lou Reed… Mas eu disse que queria um capacete, um codificador de voz, me tornar um robô vermelho vivo. E cantei os agudos, pela primeira vez.

Onde estão os Strokes?

Fizemos alguns shows esse ano, compusemos algumas músicas. O ambiente é bom, positivo, e já não era esse o caso por algum tempo. Sem dúvida iremos nos reencontrar em janeiro para trabalhar em novas ideias. Mas não se empolgue muito: isso pode levar dois ou três anos.

Tradução: Equipe TSBR

Fotografia: Liliane Callegari

(Leia a  entrevista original em francês no site lesinrocks.com)